Tertúlias Alfacinhas

Tertúlias Alfacinhas

Christian Lynch – Estamos aqui em Lisboa a fazer Tertúlias Lusitanas ou Tertúlias Lisboetas.

Joaquim Falcão – Tertúlias Alfacinhas. Alfacinha é como se denomina o português nascido em Lisboa. Os verdadeiramente oriundos.

Christian Lynch – Isso dá briga regionalista. Embora Portugal seja um pouco maior do que o estado do Rio, existe uma rivalidade enorme entre o Porto e Lisboa. Tenho uma amiga carioca que se mudou para o Porto e se tornou portuense fanática. Quando estou em Lisboa, ela me pergunta: “O que você está fazendo aí na Costa D’África?” Simetricamente, quando estou no Porto, outra amiga minha, lisboeta de raiz, me pergunta: “Quando é que tu voltas cá pros mouros”?

Joaquim Falcão – Essa rivalidade existe, quase rivalidade entre irmãos. Quem nasce em Lisboa é alfacinha, mas quem nasce no Porto é tripeiro. Rivalidade palpável na vida quotidiana. Por exemplo no futebol. Em Portugal, o futebol hoje é sociologicamente mais importante do que no Brasil. O Benfica é um patrimônio de Lisboa assim como o Futebol Clube do Porto é do Porto. Como o país é pequeno e não tem muitos times e campeonatos nacionais, a disputa entre Lisboa e Porto e seus times ocorre talvez seis ou mais vezes ao ano. Sempre com comoção nacional. Em que as torcidas se torcem, retorcem e distorcem. Às vezes, se enfurecem.

Christian Lynch – Da primeira vez que vim a Portugal, em 2004, lembro de ter reparado em Coimbra os portugueses nos botequins de pé, assistindo ao jogo de futebol com esse entusiasmo que você descreveu. Era idêntico no Rio, quando eu era jovem. O futebol como elemento constitutivo da nacionalidade. Tenho a impressão de que isso mudou um pouco entre nós. Estava lendo em um livro do Francisco Bosco, que será publicado em breve, no qual ele afirma que durante muito tempo do século XX a identidade cultural brasileira teria sido sustentada a partir do Rio de Janeiro pela música popular e pelo futebol. Você acha que o futebol passou a exercer a mesma função em Portugal?

Joaquim Falcão – O futebol funciona como um amálgama não apenas das regiões de Portugal, mas da própria Comunidade Europeia. Gilberto Freyre diria que, para bem entender este fenômeno, precisaríamos de uma sociologia política do futebol. E com razão. Os indicadores estão aí. Basta atentar para a enorme importância financeira que o futebol conquistou no conjunto da Europa. As imensas audiências de televisão e mídias que obtém. Além de estádios cheios e vibrantes.

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O turismo desportivo tem crescido. Clubes são agora grandes e milionárias empresas. Valem bilhões de euros. Se perguntar hoje quem é o herói nacional português, a resposta é o Cristiano Ronaldo. Quase um deus grego esteta, vitorioso, símbolo da vitória. Um David de Michelangelo. E, no entanto, ele joga a maior parte das temporadas fora de Portugal. Ele é um deus além do apenas português, é europeu. No passado, o maior jogador português era o Eusébio. Mas, àquela altura, o Eusébio, com certeza por ser negro, não simbolizava nem Portugal nem Europa.

O Cristiano Ronaldo em Lisboa tem duas ou três casas. Nunca se sabe onde vai dormir. Passou a ser símbolo da integração com a Europa. É mito. Os portugueses se preocupam muito mais em vencer e pertencer à Europa do que pertencer ao próprio mundo luso-transcontinental que criou.

Christian Lynch – Não será o Cristiano Ronaldo o Ayrton Senna deles? Quando o Ayrton Senna era o herói nacional, a autoestima cívica brasileira estava no dedão do pé: derrota vergonhosa na Copa de 90, inflação, impeachment de Collor, escândalo da calcinha com o Itamar… Nosso complexo de inferioridade, só o Senna curava. O endeusamento do Cristiano Ronaldo não teria a ver também com o complexo de inferioridade do português em relação ao restante da Europa?

Joaquim Falcão – Pode ser. Sublinho o papel ainda não suficientemente percebido, acredito, e até mesmo geopolítico, que a cultura desportiva tem no mundo contemporâneo. Depois da Segunda Grande Guerra, o Ocidente aderiu ao american way of life. O principal instrumento cultural dessa conquista americana foi o cinema, o glamour de Hollywood. Passamos todos a ser subatores do cinema americano: hábitos, estética, físico, lar, música, whisky, heróis, arranha-céus. Hollywood vendia e nós consumíamos mais do que simplesmente produtos. Consumíamos poderosos hábitos culturais. Sem querer, mas querendo, como diria o pernambucano Aloísio Magalhães. A cultura desportiva, porém, não foi consumida. O beisebol e o basquete não correram o mundo. Nem o rugby nem o cricket. Quem correu e liderou foi o futebol. Fundamental para a identidade europeia. Nasceu na Inglaterra. A Fifa é na Suíça. E é sintomático que agora, nesta guerra entre Rússia e Ucrânia, uma das mais importantes sanções da Europa à Rússia seja exatamente a de excluir a Rússia dos campeonatos da Fifa e dos demais campeonatos de futebol. A força desta sanção é sua representatividade europeia. Apela ao coração, à emoção, ao hábito, à identidade europeia. A OTAN é futebolística. O futebol faz parte de um european way of life. A OTAN sonhada por Trump e Biden é como a Liga das Nações do futebol.

Christian Lynch –O Senna fazia sucesso aqui em Portugal também.

Joaquim Falcão – Essa é outra analogia que podemos fazer. Fórmula 1 não fez parte do american way of life. Fez e faz no, digamos, european way of sports. Aliás, Lisboa tinha um importante autódromo de Fórmula 1. Pertencia a uma empresária portuguesa muito brasileira, Dona Fernanda Pires da Silva. E mais. A quinta de Antonio Carlos de Almeida Braga em Sintra era um dos refúgios favoritos de Ayrton Senna, que aqui vinha com frequência. Você tem razão também quando diz que o Senna nos ajudou a livrarmos do complexo de vira lata de Nelson Rodrigues. Como diria a escritora Paulina Chiziane, moçambicana, Prêmio Camões de Literatura de 2021, até então “nós vimos do lugar nenhum”.

Como Pedro Álvares Cabral, Senna, e a seleção canarinho, nos coloca no mapa das importâncias mundiais. Agora é a Amazônia. Mas, na época do Brasil grande, a maior audiência dos telejornais era primeiro a vitória pessoal de brasileiros no exterior. Como a vitória não se dava no campo econômico, nunca no científico, ela se dava no campo esportivo. Audiência midiática nas vitórias foram espetaculares. Era a Fórmula 1 quem de manhã acordava o Brasil. As vezes de madrugada. O “Tema da Vitória”, de Eduardo Souto Neto, que tocava quando Senna vencia e subia ao pódio, passou a ser um hino nacional popular.

A segunda maior audiência da televisão era morte de brasileiro famoso. Seja no Brasil ou no exterior. A celebridade não morria de uma vez só, como queria Montaigne. Inexistia morte súbita. Nem último suspiro. Celebridade morria durante três ou quatro dias no Jornal Nacional. Morte prolongada. Exemplo clássico, além da de Senna, foi a overdose de Elis Regina, comoção nacional, durou dias.

A terceira grande audiência eram as tragédias ambientais, inundações, catástrofes. Tudo virava midiaticamente um tsunami, um vulcão em erupção. A falta d’água secava até lágrimas. Demoravam dois, três ou quatro dias para uma cabra vadia, diria outra vez Nelson Rodrigues, morrer.

Neste momento, a TV Globo descobriu que entrevistar diretamente o brasileiro afetado pela tragédia, ao vivo, com o repórter fazendo parte da tragédia – observador-participante, diriam os antropólogos – era mais importante do que a tragédia ambiental em si. Se possível, o repórter se afogava também, com colete salva-vidas e tudo mais. Talvez tenha nascido daí a preocupação do brasileiro com o meio ambiente.

Lembro de uma pesquisa do IPESP, quem me alertou foi Antonio Lavareda, década ainda de 80, ou de 90, com um dado surpreendente. Cerca de oitenta e tantos por cento dos brasileiros, mais do que o americano, o francês ou mesmo o alemão, eram favoráveis à defesa da floresta amazônica. Aliás, o Brasil é um dos poucos países no mundo onde a natureza tem geral e específica proteção constitucional. A Suíça também constitucionalizou a defesa de seus rios. E a Índia, as vacas, por seu símbolo religioso. Mas aqui, no artigo 225, §4º, da Constituição se diz expressamente que a Amazônia é patrimônio nacional.

Christian Lynch – A Constituição nos traz para a discussão política.Assisti à última vitória do Partido Socialista (PS) na casa de uns parentes conservadores. Parte da elite daqui parece também ter aderido a um certo neoliberalismo: reclama dos impostos que paga, acha que Portugal não cresce por haver proteção social demais. Diz-se que não há cultura de trabalho. Essa aristocracia começa a demostrar pela direita radical a mesma simpatia de sua equivalente brasileira em 2018. O discurso contra os direitos humanos das minorias é reduzido como bobagem, porque veem nela uma ponte para seu programa econômico. Lembra do famoso “Não votei no Bolsonaro, votei no Guedes”? Dias depois fui jantar com brasileiros com interesses aqui, a maioria rentista. A conversa era parecida. Também não querem saber de solidariedade social. O mais curioso, porém, era a contradição. Esses brasileiros dizem que a qualidade de vida em Portugal é muito superior que a do Brasil, porque aqui é mais tranquilo e mais seguro. Não passa pela cabeça deles que essa tranquilidade e essa segurança se devem ao Estado de bem-estar, bancado pelos impostos que não querem mais pagar.

Joaquim Falcão – A democracia portuguesa deita-se no que chamo de colchão social. Assistimos agora às eleições para o Parlamento português. Tudo ocorreu na mais perfeita ordem democrática. A campanha, os discursos, as manifestações de rua, em média 200 pessoas tonitruantes, com uma quase anódina cobertura de mídia e suaves agressões verbais. Os dois candidatos principais, António Costa, socialista, e Rui Rio, conservador, não muito se distinguem um do outro. Não são radicais. Embora com posições distintas, inexiste ameaça de descontinuidade radical na política governamental econômica, social ou cultural. Portugal parece um país apaziguado consigo mesmo.

Christian Lynch – Por quê?

Joaquim Falcão – Justamente porque existe um colchão social que amortece choques e rupturas. O sistema de saúde é bom. A educação é boa. A segurança urbana é ótima. O salário-mínimo é mínimo mesmo, mas suficiente para viver com dignidade. Quase todos são proprietários legítimos. O sistema de heranças funciona a contento. Sem existir morgados… Pode-se aperfeiçoar, é claro. Avançar mais. Mas não vejo uma ambição, uma ansiedade capitalista desenfreada decorrente do famoso “espírito animal” do capitalismo selvagem.

Em termos mais eleitorais, você pode ser contra o António Costa ou o Rui Rio, mas nenhum eleitor se sente ameaçado por um ou outro, como acontece no Brasil, nos Estados Unidos, com Trump ou Bolsonaro, ou em vários países da Europa.

Christian Lynch – Você acha que esse partido de extrema direita – o Chega –, que levou 7% dos votos, não oferece risco?

Joaquim Falcão – Por enquanto, não. O vencedor António Costa é muito hábil. Tem cautela. Às vezes, o modo de fazer é mais importante do que o próprio fazer. Tem uma não usual prudência socialista, quase conservadora. Portugal parece-me um país que tem uma certa aceitação de si mesmo. Existe uma frase de Gilberto Amado, brasileiro, nosso embaixador, sergipano da terra do Ancelmo Gois, uma frase muito simples: “Querer ser mais do que se é, é ser menos”. Eu sinto que Portugal quer ser mais, mas à sua maneira e no seu ritmo. Lento e denso, como diria György Ligeti.

Portugal quer ser Europa, mas não quer vencer a Europa. É o contrário de 1500, quando pretendia ser mais do que Europa. Queria, a partir de Sagres, diria Nélida Piñon, conhecer, criar, ser o mundo.

Uma vez perguntei ao presidente Mário Soares, na casa de Roberto Marinho, por que ele tinha tão grande ligação, tão forte estima pelo Brasil, e o presidente Cavaco Silva, não. Mário Soares respondeu logo. “Professor Falcão, ao Cavaco falta-lhe mundo.” Eis aí as duas atitudes geopolíticas ainda hoje básicas para a identidade político-cultural portuguesa.

Christian Lynch –Chega de política. Estou ficando com fome. Vamos comer bitoque, bacalhau ou alheira? Afinal, a comida parece unificar Portugal tanto quanto o futebol…

Joaquim Falcão –Sim, vamos passar para a gastronomia que denomino de identitária. A Itália tem a pizzaria, a Inglaterra tem o pub, os EUA têm o fast food, a França tem o bistrot, o Japão tem as casas de sushi, Portugal tem… a pastelaria. Às vezes chamadas de padaria, ou vice-versa. E em quase todas as esquinas você encontra o melhor da comida portuguesa, os doces os salgados. A pastelaria é uma unidade não somente econômica, mas comercial, industrial e cultural como um dia me alertou Claudio de Moura Castro. Ou terá sido o Silvio Meira?

Unidade familiar também, quase sempre. De pai para filho, a mulher na cozinha, o pai no balcão, os filhos servindo. E não raro, a sogra no Caixa… Não se pretendem transformar em uma rede do McDonald’s. É como se aquela unidade familiar – econômica – fosse o suficiente para preservar uma identidade, um modo de ser, e, ao mesmo tempo, produzem, comercializam, servem produtos de uma gastronomia enraizadamente portuguesa. Fabricam o pão, o vinho, o queijo, pescam peixes, mariscos e preparam o bacalhau. E os transformam em identidade cultural. Gastronomia quotidiana. Gastronomia identitária.

Dizer que uma pastelaria é também uma indústria, alguns vão pensar que é exagero. Não é não. Não são poucas as que colocam no letreiro: “Fabrico próprio”.

Christian Lynch – Lembrei agora de uma categoria culturalista que o professor Luiz Werneck Vianna desenvolveu, a do “iberismo”, para designar uma certa mentalidade portuguesa transmitida à cultura política do Brasil. Entre suas características, estaria um certo viés anticapitalista: movido por interesses egoísticos, o capitalismo desorganizaria a necessária harmonia social que caberia ao Estado restabelecer. Daí, na Era Vargas, a construção de uma legislação trabalhista e de um aparato corporativo, destinado a conter as reivindicações da classe trabalhadora e a avidez de lucro do patrão. Era aqui em Portugal o tempo de Salazar. Será que ainda existe “iberismo” no Portugal moderno, europeizado?

Joaquim Falcão – Por que não? Aliás, Mangabeira Unger anotava que a diferença da Espanha, e eu incluo Portugal também, é uma forte classe média e não a ideologia das grandes empresas. No setor agrário por exemplo, a unidade econômica e cultural é a quinta, onde, outra vez, a família, os produtos e as finanças se confundem e se complementam. Não é como, no Brasil, o latifúndio. Talvez esse sentimento antipatrão tenha a ver com essa origem. Tanto a pastelaria como a quinta não têm patrão. Antes, tem pai- patrão. Pai, mãe e filhos, nora, genro etc., que se confundem em quem manda com quem obedece.

Por outro lado, o fato de Portugal ser mais apaziguado consigo mesmo do que a maioria dos países europeus, sem falar nos latino-americanos ou africanos, não implica que não terá de enfrentar alguns problemas complexos. Por exemplo: existiria hoje um latente preconceito contra brasileiros? Existe ainda racismo latente contra ciganos, africanos, que eles mesmo reconhecem. Um eventual racismo diante do brasileiro não teria nada a ver com a raça ou a cor da pele. Prefiro chamar de um preconceito profissional, na medida em que se agrava a competição entre brasileiros e portugueses profissionalmente. Portugal vive um paradoxo clássico. Quanto mais o país diminui seu crescimento demográfico, mais a política econômica depende de mão de obra estrangeira. Alguns setores portugueses sentem o acirramento da competição e reagem como podem. Não com a racionalidade dos financistas que tudo transforma em números, mas com a emoção do simplesmente humano.

Christian Lynch – O governo português tem vivamente procurado incentivar nos últimos anos a imigração de brasileiros para Portugal para substituir sua mão de obra perdida para países mais desenvolvidos da União Europeia, como a França e a Suíça. Acha que a reação a essa presença brasileira também se manifesta na forma de preconceito?

Joaquim Falcão – Eu não digo que existe, mas é um problema latente que se infiltra de várias formas. Hoje em dia, já é um clássico a notícia da Folha de S. Paulo, que é verdadeira, de que os pais estão meio preocupados porque os games são todos em “brasileiro”, e as crianças portuguesas começam a falar “brasileiro” e não português. A política dos vistos – do golden visa, da concessão de nacionalidade portuguesa a descendentes de judeus perseguidos, ou as facilidades para aposentados morarem em Portugal – faz partes desse problema. Não é somente em relação a brasileiros ou africanos asiáticos. O colchão social, o apaziguante político e urbano português atrai milhares de aposentados franceses, ingleses, alemães, todos os anos.

Com a recente invasão de aposentados europeus em Portugal, inverte-se a história. Portugal quer ser europeu, e a Europa quer ser portuguesa.

Quando um português deixa escapar a expressão “Isto é coisa de brasileiro!”, não elogia. Diminui. Não estou falando de racismo como raça, eu estou falando de preconceito como competição profissional e econômica.

Christian Lynch – Parece um sistema de imperialismo em dois graus. Se alemães ou franceses vêm a Portugal com suas empresas, executivos e trabalhadores, tudo muito bem. O problema começaria quando os concorrentes profissionais são brasileiros, ou extraeuropeus?

Joaquim Falcão – Não sinto ainda abertamente essa tendência. Até porque já se começa a falar que alemães e franceses estão vindo em excesso para Portugal e que deviam ficar nos seus países, sobretudo os aposentados. E começa também uma impaciência com os eslavos. O que talvez mude com a guerra na Ucrânia. Vamos ver.

Christian Lynch – Uma espécie de nacionalismo?

Joaquim Falcão – Um nacionalismo como reação ou limite, e não como desejo. Um nacionalismo não como expansionismo, mas um nacionalismo defensivo. A política governamental estimula a vinda de ativos, sobretudo financeiros, para aumentar o consumo em Portugal de coisas portuguesas, de casas, de salários, de indústrias e recursos humanos. Mas existe um limite cultural e emocional dessa aceitação. Sobretudo pelo trabalhador menos qualificado e pela população de mais idade.

Christian Lynch – Sempre houve aqui essa imagem do brasileiro como novo rico ou ignorante, não? Entretanto, o governo precisa da imigração brasileira para compensar a emigração portuguesa para países mais desenvolvidos da União Europeia. Imigração brasileira que é preferível para o governo a qualquer outra, porque não há nacionalidade com maior semelhança cultural.

Joaquim Falcão – O que traz vantagens para ambos os lados. A língua – “brasileira” ou portuguesa – não é um impedimento, ao contrário. O nível cultural e educacional dos brasileiros que estão vindo, sobretudo em áreas de tecnologia e setores mais especializados, é tão bom ou quanto qualquer um da Europa. A língua é minha pátria, já diziam. Falando português, temos condições de competir melhor dentro do próprio mercado de trabalho português do que os outros europeus. Nosso falar e compreender é uma vantagem competitiva.

Christian Lynch – Um amigo costuma dizer que a língua se tornou para os conservadores daqui o último reduto do imperialismo – um imperialismo linguístico, que desvaloriza as variações da América ou da África como equivocadas ou simplesmente erradas.

Joaquim Falcão – Embora oficialmente, formal e legalmente tenhamos acordos ortográficos, ninguém os respeita muito. Trata-se muito mais da formalização de um passado do que a prática de um presente. Não se discute mais o respeito ou não aos acordos ortográficos. O vento levou. O futuro levou. Os acordos ficaram velhos, antes de ficarem antigos. Mesmo porque a linguagem, diante da tecnologia e das novas gerações e campos do conhecimento, mudou. O que vai prevalecer é a linguagem da internet, em todas as línguas. Digital. Cada dia mais fragmentada, sintética e universal. Imagens escritas. Quase egípcias.

Christian Lynch – Há uma tensão entre dois projetos ou imagens de Portugal. O primeiro é orientado pela herança imperial, do Portugal voltado para o Brasil, para África, para a Ásia. Portugal como cabeça de mosquito. O segundo é orientado pelo projeto de um Portugal exclusivamente europeu. Portugal como cauda de leão. O lugar do Brasil varia conforme cada um desses projetos. O primeiro tem uma postura muito mais simpática e familiar, digamos, a respeito do Brasil. O Brasil como filho mais velho, de quem se tem orgulho, mas que às vezes magoa o pai com suas irreverências. O segundo, por sua vez, olha o Brasil como um país estranho, exótico.

Joaquim Falcão – Não podemos generalizar nada do que conversamos aqui nestas tertúlias. Estas observações são fragmentações, sensações, experiências pessoais, e não de um conhecimento socioantropológico ou mesmo político mais rigoroso. Mas existe, sim, um bom exemplo dos trabalhadores da hotelaria e da construção civil que vão trabalhar na Suíça com o Permis Saisonnier. Um dos problemas que o patrimônio histórico teve aqui é que os portugueses que iam para a Suíça, para a França etc., mandavam suas poupanças com instruções para que suas famílias construíssem não casas dentro da arquitetura de pedra e cal portuguesa. Mas casa “estilo chalé”, revelando já influência anglo-saxônica. Inclusive da Suíça, da Alemanha, da Áustria.

Christian Lynch – Os portugueses que vinham para o Brasil até os anos 1950, e que inspiraram as famosas piadas até pouco tempo ainda populares, pertenciam a uma classe social muito baixa. Eram analfabetos, pobres e devotos. Esse Portugal desapareceu com sua absorção pela União Europeia. Mas os brasileiros que vêm para Portugal também não parecem os mesmos que vinham até há algum tempo.

Joaquim Falcão – O brasileiro que hoje vem a Portugal é de classe social completamente diferente e, sobretudo, com uma atitude diante da imigração e do mundo completamente diferente. Vinham para cá no passado, no século XX, com um certo, vamos dizer, fracasso. Meu Brasil não me deu o que eu preciso e agora preciso obter aqui o que não consegui por lá: emprego, salário, assistência social etc. e tal. Hoje é diferente. Eles vêm para cá para competir e para ganhar. Assisti a um brasileiro reagir quando uma aeromoça disse: “Isto é coisa de brasileiro”. Um brasileiro de cerca de 30 anos logo replicou: “Não adianta, temos de tomar esse país pela força.” Não a força física, é claro. Mas pela força da competição profissional.

Christian Lynch – Acha que esses brasileiros viram portugueses? Com as proximidades culturais, parece a coisa mais fácil.

Joaquim Falcão – A nacionalidade, o vínculo com seu país, a não ser em momentos de crise ou de confronto, tende a permanecer independente da geografia. Embora se dilua nas gerações. Gilberto Freyre dizia que a unidade nacional brasileira foi feita pela Igreja Católica, pela família e pelos juristas. Isso mudou completamente. Os dois conceitos, hoje, que nos mantiveram unidos, embora desiguais e de oscilações grandes, foram os de capitalismo e democracia. Não foram herdados de Portugal.

Christian Lynch – Este é um momento rico e angustiante a mais de um título. Nenhuma aventura se vive sem uma certa ansiedade, decorrente da imprevisibilidade do que vem pela frente.

Joaquim Falcão – Adam Przeworski, cientista de Chicago que eu o descobri há 30 anos, tem um artigo cujo título é “Ama a incerteza e serás democrata”. Nós estamos nesse momento da incerteza, de como vão caminhar as relações entre o mundo e Europa. Portugal e Brasil. O que a história nos diz é que já estamos no futuro da história. E na história de nossas relações não tivemos guerras colônias ou civis. Mas um certo continuum de solidariedade, inveja e competição luso-brasileira. Alternante na história… Como se fossem irmãos. O mundo mudou. Bill Clinton, ou melhor, seu marqueteiro político, James Carville, diria: “É a economia, estúpido!”. É a língua, também. Temos de transformá-la, juntos, em uma vantagem luso-brasileira na competição globalizada. Mesmo com turbulências. Ou mau humor.

Christian Lynch – É por isso que, quando me perguntam o que venho fazer em Portugal, respondo: “Vou aprender um idioma novo”.

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