Tia Anacleta e os outros(Contos de irrealismo fantástico)

Tia Anacleta e os outros(Contos de irrealismo fantástico)

Gustavo Maia Gomes

 

Indignados depois de lerem estas coisas, meus personagens se reuniram em protesto. Glub Glub disse estar vivo; Trancilda Marcire espalhou podridão na sala; Josianinho garantiu ter parado de encolher; Tia Anacleta, com os dois olhos abertos, viu seu cérebro escorrer pelos ouvidos; Getulmino jurou jamais ter ido à Itália, onde se encontrava naquele momento; Quasemiro abandonou os trabalhos antes que terminassem; José de Alencar leu “Iracema” em voz alta e todo mundo foi embora. Nunca se tinha visto tal revolução literária. Um dia, Confúsio, o filósofo francês nascido na China, irá explicá-la de uma maneira totalmente incompreensível. Eles que se desentendam. Nada tenho a ver com a sua revolta. Só conto histórias verdadeiras.

Getulmino

Percorrendo os corredores do Vaticano, Getulmino Sânfora abriu a porta improvável e viu o papa sentado numa poltrona branca sem fundo. Houve constrangimento, mas ele pediu desculpas, retirou-se e foi se recompor nos jardins. Decidiu incluir o episódio no seu próximo livro recém-publicado.

No dele, pode ser; no meu, não. Tenho ideia melhor. Cansado de tanto amar, Josiano Xavier quis um dia criar na sua imaginação uma mulher diferente, de olhar e voz envolvente… Êpa!, isso é plágio. Tento de novo. Insuflado pela propaganda, o Vale do Enxerto tornou-se o lugar mais visitado daquele país andino. Não que fosse um país cortado pelos Andes. Andinos eram os seus habitantes que, de tão pobres, nunca tinham visto um automóvel. Iam pra todo lugar andindo. Andindo, não, andando.

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Cheguei ali sozinho, pilotando uma asa delta. O motor enguiçou e, antes de eu me lembrar que asas deltas não têm motor, já tinha feito o pouso forçado matando dois jumentos e uma freira que fazia não sei o que no meio de tantos jegues. Gostei do Vale, onde não circula dinheiro, só vales. Meu companheiro de viagem apresentou-se ao bar da esquina, comprou uma cerveja e a pôs no sol, para que esquentasse. Eu lhe repreendi. Se queria algo quente, que comprasse um café com pão, bolacha não. Era o som que a locomotiva maria-fumaça fazia: café-com-pão-bolacha-não.

Absorvido nesses pensamentos medievais, mal ouvi quando o trem parou na estação, eu sentirei no coração a alegria de chegar. Acordou-me o cobrador brandindo em meu rosto velha apólice do Banco Mercantil. Ofereci-lhe quitar a dívida com um vale. Ele recusou. Jogou-me janela a fora. Getulmino veio em socorro. Uma amizade antiga nasceu naquele momento: ele me contou a história do papa, comprou um picolé de açaí na Mercearia Pará e desapareceu no horizonte, tão misteriosamente quanto havia aparecido.

Aparecido, só, não: Aparecido e Aparecida, o casal mais importante de Macioba, onde eu estava agora. Cidade tão pequena que qualquer topada podia causar uma guerra cívico-militar por violação de território inimigo. Eu não iria permanecer ali, a não ser pelo fato de que estava preso e condenado a trinta anos.

Todo mundo que visitava Macioba era condenado a trinta anos. Achei justo, mas ninguém cumpria a pena: a cadeia fora construída exatamente em cima da Tríplice Fronteira, o que a fazia invadir dois países vizinhos, possibilitando aos detentos escolher para qual deles escapar. O carcereiro vendia passaportes. Optei pelo país andino, por ter feito ali muitos inimigos entre jumentos e freiras. Voei com a asa delta consertada pela oficina Tomorrendo, levando a caneta Parker 51 com que Dom João VI escreveu a sentença de morte de Napoleão Terceiro.

Josianinho

Encontrei Josiano Xavier, a quem não via desde antes de ele nascer, numa fila de auxílio emergencial. O homem tinha queixas: – Você me fez de bobo: eu apareço e desapareço em sua história, como se não valesse nada. Pedi desculpas: – Acertei, então? A raiva desapareceu. Apresentou-me à família: – Josiana, minha mulher; Josianinho, meu filho mais velho; Josianinha, a segunda; Josianinhozinho, o terceiro; Josianinhozinhoíssimo, o quarto e … – Basta! interrompi-o. – Como sabe? Desconversei. Só uma besta teria um filho chamado Basta.

Meu olhar se fixou em Josianinho. Ele nasceu com metragem negativa, corrigiu isso, depois, mas nunca ultrapassou os 48 centímetros. Era mais alto deitado do que andando. De nada servira o pai pendurá-lo pelos pés todas as noites, num gancho de rede, a fim de que esticasse enquanto dormia. Só lhe cresceram os dedos. Tanto que o filho de Josiano, quando descansa os braços, varre o chão com as unhas. Pior é que o menino, desde há um tempo, vem encolhendo.

Nenhum médico pôde explicar aquilo. Nem ajudar, muito menos. Um curandeiro homeopata, sim. Descobriu que Josianinho diminuía cada vez que pronunciava um cê-cedilha. Todos nós falamos palavras com cês-cedilhas. Mas, não encolhemos. Josianinho encolhia. O pai foi informado de que o Dr. Silvana tinha problema oposto: crescia 30 milímetros e meio por cada crase pronunciada. Seu consultório ficava num teatro. Ele se punha de pé no primeiro piso e atendia os clientes no balcão.

Muito culto, Silvana empregava crases em abundância, daí ter crescido tanto. Quando soube de Josianinho, teve a ideia de ir com ele à Academia Brasileira de Letras pedir uma reforma ortográfica. Pegaram o VLT na Praça Mauá e foram. Bateram na porta do edifício, mas ali só havia surdos, de modo que subiram as escadas sem autorização. Encontraram José de Alencar dormindo. – Seu José, falou Silvana, seu José, acorde. – Iracema, meu grande amor foi você, respondeu Adoniram Barbosa por trás da porta.

O barulho fez Alencar interromper o sono. Ouviu atentamente a reivindicação dos dois, o que crescia com as crases e o que encolhia com os cês-cedilhas, mas disse que nada podia fazer. – Tenho problema pior: aumento de tamanho quando escrevo palavras simples e diminuo com os polissílabos paroxítonos. Dr. Silvana não podia acreditar no que ouvia. – Quando terminei de escrever “O Guarani”, estava quinze centímetros mais baixo; “Lucíola” me levou mais cinco; “Ubirajara”, outros tantos. Só não parece porque fiz implantes de canelas.

– Nada de reforma tributária, decretou o escritor cearense, misturando as coisas, enquanto saía de fininho, pois terminara a hora do almoço, e o dono da casa, seu rival Machado, já tinha entrado no elevador. – Ele aspergiu rapapés sobre os magistrados e ocupa essa cadeira inconstitucionalissimamente, desabafou Alencar, enquanto encolhia quase dois centímetros. – A pandemia não perdoa, disse Josianinho que, além de pequeno, era burro.

Essa história termina aqui, pois o editor do livro me ordenou, peremptoriamente: nenhum capítulo terá mais de uma página. Nem menos. Não fosse isso, eu ainda teria muito a dizer sobre Josiano e seus filhos. Principalmente, sobre Basta, que tinha, realmente, uma cara de BR 101 chegando a Natal.

Anacleta

Na infância, ela abria apenas um olho de cada vez. Na mocidade, também. A vida inteira. Todas as horas do dia e da noite. Tinha insônia, pois só conseguia dormir pela metade. Puro capricho, mas com curiosas consequências: se usava o olho direito, tudo lhe parecia lindo; se o esquerdo, o mundo era um inferno. Seus humores e propensões variavam do mesmo jeito. Meiga hoje, agressiva amanhã; amiga hoje, traidora amanhã; santa hoje, pecadora amanhã. Até no último caixão, se lhe desciam uma pálpebra, a outra subia.

Minha primeira lembrança dela é a do incêndio. Eu devia ter uns cinco anos. Morávamos na mesma casa. Anacleta pôs fogo no quarto onde eu dormia. Tinha estocado gasolina no tempo em que o dólar estava barato. Ficou satisfeita quando as chamas subiram até o teto, tomando todo o espaço. Só escapei porque o relógio cuco anunciou um novo dia. Anacleta trocou o olho aberto do esquerdo para o direito e extinguiu o fogo em poucos minutos.

Com o tempo, as pessoas perceberam a relação entre o olho que Anacleta mantinha aberto e o estado geral do seu espírito e só lhe dirigiam a palavra se ela estivesse em dia bom. Adiantou pouco, pois quando ela olhava o mundo pela esquerda, fazia planos diabólicos. De uma feita, marcou reunião virtual com as amigas. Como sabia que nenhuma aceitaria o convite se ela aparecesse com o olho direito fechado, pôs-se em frente ao espelho e fez um vídeo com a imagem invertida. Mandou pela rede social.

Dezoito mulheres se apresentaram na hora do encontro. A primeira coisa que ouviram foi: “Cambada de vagabundas!” Estupefatas, as amigas foram chorar na rua. Regininha gritava: “É a mula que te pariu!” Essa, muito piedosa, rezava todos os dias, pedindo que alguém desse um jeito em Anacleta. Ia além do apenas pedir. Fazia sugestões. Que furassem o olho esquerdo da minha tia. Regininha era muito boa.

Certa vez, uma santa desceu ao mundo e se apresentou a Anacleta olho direito. Teve a melhor impressão. Voltou no dia seguinte. Foi recebida por um roqueiro heavy metal que estampava no peito um enorme pênis tatuado em vermelho sangue. A moça transcendental nunca mais quis saber da Terra. Mas, onde vivia, espalhou somente a parte boa da história. Por isso, outra santidade interessou-se pelo assunto. Decidiu aterrissar em plena rua onde moravam minha tia e as amigas dela. Foi estraçalhada pelo motorista bêbado de um caminhão sem freios.

Regininha, que estava no local por acaso, presenciou tudo e, depois de consumada a tragédia, reuniu os pedaços da santa e os mandou via Sedex de volta ao lugar de origem. Foi contar o caso às amigas, mas nenhuma lhe deu crédito. Revoltada, decidiu envenená-las com a linguiça que aquela apresentadora da televisão diz ser ótima. Anacleta olho direito foi a primeira a dizer que iria ao churrasco. No dia seguinte, entretanto, com o outro olho aberto, não foi. Ao invés disso, fez uma denúncia anônima, e a Polícia prendeu tanto as mulheres quanto a carne de porco.

Na madrugada seguinte, o governador ouviu o telefone tocar. Era o secretário de Segurança. Dez policiais haviam morrido com dores estomacais insuportáveis. Falavam de umas linguiças que Dona Anacleta Suportino da Silva havia mandado eles comerem. – Mas, quem é Anacleta Suportino da Silva? – perguntou o governador. – Apresentou-se como sua amiga – respondeu o secretário. Com o olho esquerdo aberto, Tia Anacleta compareceu ao enterro coletivo. Estava radiante.

Glub Glub

Getulmino Sânfora Filho (Filho ou Espírito Santo? Nunca sei) bateu minha carteira e levou Pix, assinatura digital, quatro bitcoins, todas as transferências eletrônicas que eu havia feito desde a morte de Tancredo Neves, um retrato de São Domingos Sávio, a bengala de vovô Nominando, dois caroços de mandioca e a devolução do imposto de renda de 1941, que nunca recebi. Pior é que eu não tinha essas coisas comigo. Tia Anacleta me ajudou a encontrá-las. Nada foi assim, mas o editor cobra os originais do romance e eu não sei mais o que inventar.

Eita! Lembrei-me de outro caso. Começou na Ponte Giratória. Não sei o que eu estava fazendo lá. Avistei alguém nadando a braçadas no mar revolto, emitindo gritos: – Vim salvar o Brasil! Consultei o relógio. Ainda faltavam dois anos para a eleição. Não devia ser candidato. Mas ele insistia, aos berros: – Vim salvar o Brasil! – Vim salvar o Brasil! Uma multidão se juntou a mim. A ponte demorava muito para dar um giro completo, de modo que a maior parte do tempo estávamos de costas para o nadador. Suas últimas palavras foram: – Glub, glub. Não sei o que queriam dizer. Como não apareceu mais, imagino que ele tenha salvo o Brasil submarino.

Vieram, então, as formigas. Milhares delas. Milhões. Eram minhocas, na verdade, pelo jeito como cantavam “eu fui a Itororó beber água não achei, achei bela menina que em Itororó deixei”. Provocaram imenso engarrafamento de trânsito na Quinta da Boa Vista, que se prolongou pela sexta e sábado. Precisou o padre vir com uma vara de pescar para as minhocas desaparecerem. Mesmo assim, duas foram levadas para a delegacia. Eu as ouvi depor em libras esterlinas. Uma se revoltou por lhe chamarem de minhoca. Era macho.

O delegado tinha sido demitido. Em seu lugar, havia um general. Trouxeram o canhão. O minhoco disparou o tiro de misericórdia, antes de ganhar da rua, empatar com a avenida, e ser vencido pela Alameda Santos aos 49 minutos do segundo tempo. Na Broadway, cartazes anunciavam Chitãozinho e Xororó.

Acho que me perdi. Cadê o Filho e o Espírito Santo? E o Amém? Encontraram o cadáver do Glub estraçalhado pelos tubarões. – Vim salvar o Brasil, vim salvar o Brasil, gritavam as tripas remanescentes. Quantas rodadas deu a Ponte Giratória desde que abandonei o local? Vovô Nominando telefonou: quer a bengala de volta. Sente a mão vazia, agora que a terra lhe comeu as carnes.

Estou desorientado. Ou conserto isso ou meu romance não vai ganhar o prêmio Nobel da Física. Nem o Oscar do basquete. Me aconselharam a tomar uma cachaça não é água não, cachaça vem do alambique, água vem do ribeirão para ver se consigo psicografar alguém famoso. Pensei em Luiz Felipe Scolari, mas ele ainda não terminou de contar os gols da Alemanha. Melhor Manuel Bandeira, que vai me dizer se a barata de Kafka sobreviveu à dedetização; se Carolina acordou com os versos querida, aos pés do leito derradeiro em que descansas desta longa vida, aqui venho e virei, pobre querida, trazer-te o coração de companheiro; se Dunga entende mesmo de tosse, como deu pra dizer, ultimamente.

Getulmino, este capítulo ficou um Ministério Extraordinário da Reforma e Desenvolvimento Agrário. É tudo culpa sua, que, em vez de fazer o concurso, foi ser artista de rua. Você está expulso do livro.

Besouro

Casemiro ficara rico traficando promessas de compra e venda. As compras, trazia pra casa, sem pagar; das vendas, entregava promessas. Tinha nove filhos, mas, ao morrer, deixou as dentaduras só para o mais novo. Com 32 dentes extras na boca, qualquer discreto sorriso de Extrógeno era uma gargalhada. No início, ele tentou manter os negócios do pai. Não conseguiu. Começava bem, mas logo punha tudo a perder. Então, ganhou o apelido de Quasemiro. E desenvolveu o gosto pelas coisas inacabadas.

Quase construiu a maior packing house do mundo – sem saber nem o que era packing, nem o que era house. Quase quebrou o Banco do Brasil. Quase ergueu, em pleno deserto da Mata Atlântica, com barros e berros, um refúgio epistolar. Quase foi aceito no Céu, sendo impedido apenas porque, na contabilidade dos pecados, ele tinha se masturbado 25.514 vezes, quando o máximo permitido (dado o precedente do padre Besouro) era 25.513. Diante disso, Quasemiro desistiu de morrer.

Voltou pra Terra outro homem. Disse que ia arrumar emprego, mas, por conselho da namorada, trocou os planos pelos inclinados. Iriam os dois pedir pensões como incapazes: Extrógeno alegaria dentes em excesso; Trancilda, disposição em falta. Que conseguiriam emplacar o golpe, era líquido e certo. De fato, as pensões foram concedidas. O dinheiro lhes era entregue em baldes d’água toda quinta-feira. Nas tentativas de resgatá-lo, provocavam enchentes na América Latina.

Já ninguém podia viver na Guatemala, o que não era novidade, mas, você sabe, por uma boa desculpa a gente faz tudo. O governo de lá mandava desesperados telegramas manhãários, tardiários e noturnários para o do país onde Quasemiro e Trancilda, mergulhados no balde, tentavam pegar as notas de três reais que lhes permitiriam ganhar a vida sem fazer força. Cada minuto que passavam naquilo, a água subia mais um metro em rios distantes. Saiu até nas redes sociais do sertão cearense.

Enquanto isso, padre Besouro estava possesso. Não com os guatemaltecos, suecos e meruecos que morriam afogados como peixes amazônicos, mas com o número 25.514. Considerava-se ultrajado com o desempenho monossexual de Extrógeno. Em represália, voltara à atividade e já tinha feito o registro no Livro Guinness do novo recorde mundial em onanismo: 26.382. Queria ver quem ganhava dele. – Você vai ser expulso daqui – advertiu-lhe São Esmíndolo. Mas, Besouro tinha amigos.

Nadando em águas turvas, Trancilda virou sereia. De só comer piabas, teve uma indigestão e morreu. Completamente. Quasemiro viúvo chorou tanto que o balde secou, criando uma fenda por onde ele fugiu. Juntou os irmãos para refazer o testamento do pai, que sempre considerara injusto. Renunciaria às dentaduras. Um torneiro mecânico ladrão lhe prometera desmembrá-las: seriam 3,555556 dentes para cada herdeiro.

Nunca se viu tanta gente feliz. Até o padre Besouro interrompeu a tentativa de melhorar sua marca olímpica e fez uma laive homenageando a família que reza unida permanece unida. São Esmíndolo aproveitou a distração do atleta manual para fuxicar contra ele, mas Besouro foi defendido por Trancilda que, apesar do rabo esquisito, dormia no Céu, por causa do ar-condicionado. De Catolé do Rocha, onde se achava vendendo terrenos na Lua, Casemiro, o pai dessa confusão toda, mandou saudações vascaínas.

Trancilda

A primeira vez que encontrei Trancilda Marcire ela falava italiano enquanto dormia profundamente. A segunda, também. Idem para todas as outras. Soube depois de sua insatisfação com o fato de os dias terem apenas 24 horas, o que a impossibilitava de passar mais tempo sem fazer nada. Aos gritos, confessou-me nutrir o sonho de ser punida, exposta à execração pública, trancafiada em prisão de segurança máxima. Vive tentando. Mas, não consegue, o ideal lhe foge.

Encheu a mãe de dívidas impagáveis e a matou por estrangulamento auditivo, pois assoviava e fazia glu todo o tempo em que estavam juntas. Foi a julgamento no Tribunal do Júri. A acusação pediu a pena máxima. “É agora”, disse Trancilda para si mesma. Que nada. Foi absolvida por conhecer as declinações latinas. Em seguida, conseguiu um atestado de doente mental com a ideia de ganhar uma grana processando o médico que o assinara. Estava a ponto de fazer a denúncia quando o homem perdeu sozinho na Mega-Sena e morreu. Ela não tem mesmo sorte.

Trancilda traiu todo mundo que a sustenta. Confiava receber o desprezo, em troca realizando seu sonho, enfim. Os amigos, porém, não a repudiaram. Ao contrário, ela preservou os que tinha e ainda ganhou outros, a quem também traiu. Próxima do desespero, vendeu três vezes o mesmo Coração de Jesus, cuspiu nos livros santos, fraudou o Serviço Militar. Queria a danação eterna, mas descobriu que o Inferno não existe. Roubou o automóvel da vizinha e botou a culpa na faxineira, que, devastada, suicidou-se jogando-se do centésimo andar. (A moça ainda está caindo, enquanto escrevo estas linhas.) “Agora pego uns dez anos”, pensou. Não pegou nem processo. Foi homenageada pelo condomínio.

O fim

Epílogo queria aparecer no final do texto. Consenti. Mas, ele só sabe terminar as coisas, não tem história nova. Seu primo Monólogo tem. Nas duas que me contou, a palavra eu aparece 300 vezes. Achei muito.

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