Tio Glycon – Preito à lucidez geoeconômica

Tio Glycon – Preito à lucidez geoeconômica

Luis Fernando Silva Pinto, Historiador e estrategista

 

Na história geoeconômica e social do Brasil aconteceu um movimento de notável lucidez que evoluiu, com maior ou menor intensidade, desde o início do século XX. Esse processo visava ao melhor conhecimento possível das riquezas do nosso solo, ao mesmo tempo em que buscava sistemas de agregação de valor. Ele viria a ter papel de destaque no nosso processo de industrialização. De certa forma, as concepções avançadas daquele grupo correspondem ao modelo de desenvolvimento adotado pela China, que levou ao seu crescimento explosivo atual.

Foi uma pena que os nossos principais atores não tenham conseguido convencer a nação de que a melhor forma de expandir o PIB e promover a distribuição de renda corresponde necessariamente (ou muito provavelmente) a um elenco de ações voltadas para o setor secundário do país. Penso de forma cada vez mais frequente em reunir esforços e pessoas com o objetivo de tornar evidente que uma de nossas prioridades absolutas é a explosão industrial do Brasil. Esse processo deve ligar o país de norte a sul e de leste a oeste, operando de forma sutil e inteligente e atraindo investimentos de capital estrangeiro de ponta. No meu entendimento, trata-se de um desafio inadiável.

Nesse binômio do “aproveitamento inteligente dos recursos naturais/desenvolvimento industrial”, algumas pessoas tiveram papel fundamental. Dentre elas, destaquem-se as presenças de Glycon de Paiva Teixeira e Mário Abrantes da Silva Pinto, ambos trabalhando no Departamento Nacional da Produção Mineral, locus no qual se conduziu a política de Oliver Derby e Euzébio de Andrade, com grande competência. Glycon de Paiva – a quem eu chamava de tio Glycon – exercia presença marcante no serviço do Fomento Geológico, e Mário Abrantes da Silva Pinto (meu pai), no Laboratório da Produção Mineral (LPM). No mesmo prédio, no mesmo espaço cultural.

No DNPM, Glycon de Paiva, Mário da Silva Pinto e uma série de colaboradores, tais como Álvaro de Paiva Abreu, Henrique C. Alves de Souza, Alexandre Girotto, Luciano Jacques de Moraes e Silvio de Froes Abreu, viveram momentos excepcionais para o desenvolvimento esclarecido de nosso país. Percorreram as regiões mais distantes, cruzaram com índios arredios (como a tribo dos Urubus), viveram situações muito próximas com o bando de Lampião e a maldade de Maria Bonita. Nessas andanças, alfabetizaram pessoas, conheceram regiões que nunca tinham sido visitadas pelo homem branco e, ao mesmo tempo, conviveram com a saga do minério de ferro, do carvão, do manganês, do petróleo e de vários outros minerais/minérios de importância capital. Nesse contexto, conheceram o país e o amaram como poucos. Tenho certeza de que todos eles, ao consultarem as entranhas da Terra, sonhavam com um país industrializado, competente, com recursos humanos adequados para fazê-lo acontecer.

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Para eles, na minha visão, o capital estrangeiro era unicamente um caminho (além de recursos, é claro) para ambientar tecnologia avançada de forma muito rápida para o nosso território, ao mesmo tempo funcionando como unidades para o preparo de mão de obra sofisticada. Nessa industrialização, ocorreram e estão ocorrendo fatos relevantes. Entretanto, essa presença industrial poderia ter sido muito mais vigorosa. Em outras palavras, a China não aconteceu aqui. Mesmo!

Dentre essas pessoas, uma das mais extraordinárias foi, com certeza, Glycon de Paiva, cuja biografia mereceria ser aprofundada e detalhada. Seria uma forma de se trazer à tona a maneira de pensar de um Brasil chinês, que poderia já estar florescendo de forma franca, vigorosa, tão intensa ou mais do que aquela em curso no mundo revolucionário de Deng Xiao Ping. Com relação a esse doutrinador pragmático de invulgar proporção, vale ressaltar o seu ditado inesquecível: “Não me importa a cor do gato, o importante é que ele cace o rato.”

Tio Glycon de Paiva era mineiro de Uberaba. Formou-se pela Escola de Minas de Ouro Preto nos anos 1920, e, no seu tempo, foi considerado como um de seus mais extraordinários alunos. Vindo para o Rio de Janeiro, iria participar do pensatorium do DNPM, instituição na qual realizou trabalhos de imensa importância juntamente com Mário Abrantes da Silva Pinto, esse no Laboratório da Produção Mineral. Tanto no fomento geológico quanto no laboratório, contavam com técnicos de nível internacional. Inúmeros desafios foram enfrentados nos planos geológico, mineral, econômico, científico e tecnológico. Durante duas ou mais décadas, uma parte significativa do inteligenciamento brasileiro encontrava-se na Avenida Pasteur, no Rio. As suas contribuições técnicas poderão ser identificadas nas bibliotecas especializadas no país.

Em meados dos anos 1950, tio Glycon iria exercer a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). Juntamente com Jorge Kafuri, Antonio Dias Leite, Mário da Silva Pinto e Roberto Campos, enfatizaria a relevância do desenvolvimento de projetos consistentes – econômicos e financeiros –, daí resultando desdobramentos no campo de engenharia econômica e estruturação de planos de desenvolvimento regional e setorial. Em 1954, ele cursara a Escola Superior de Guerra e, logo após, seria presidente da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Em sequência, participaria de organizações com vistas ao desenvolvimento empresarial em níveis regional e setorial, com forte conteúdo doutrinário, como, por exemplo, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e a Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil (Bemfam). Por último, vale ressaltar a sua participação durante décadas no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Nessas oportunidades, publicou um elenco significativo de trabalhos.

É absolutamente importante reunirmos todas essas contribuições sobre Glycon de Paiva, mapeando e refletindo sobre um material extremamente precioso, porém não divulgado na escala e na ênfases necessárias. Será preciso reunir muitas pessoas para prestar esse depoimento, entre elas seus filhos, Sônia, Glycon e Otávio, e netos – além de Lindolpho de Carvalho Dias, Paulo Vieira Be­lotti, Roberto Saturnino Braga, Antonio Dias Leite, Eliezer Batista, sua secretária, Maria Helena, Sérgio Jacques de Moraes, John Milne Albuquerque Forman, entre outros que, direta ou indiretamente, com ele conviveram. É importante assinalar que não restam muitos. Urge agir!

Quanto à minha pessoa, tenho um relato interessante a efetuar. No período 1973/74, a Consultec, empresa presidida pelo meu pai, Mário Abrantes da Silva Pinto, não recebeu uma quantia relativa ao projeto da Matriz Energética Brasileira, no valor de US$ 2,5 milhões, aproximadamente. Esse montante, atualizado para 2012 a uma taxa líquida de 6% ao ano, significaria um valor acumulado atual da ordem de US$ 18 milhões. A ausência desse recebimento provocou imensas repercussões negativas na Consultec e ficamos numa situação dificílima, pois o escritório contava com quase 100 funcionários à época. No auge do problema, Mário da Silva Pinto enfartou. Com o apoio financeiro do Dr. Blanc e do Dr. Augusto Trajano de Azevedo Antunes, ele foi levado para Cleveland e operado com sucesso.

Naquela época, tio Glycon convocou-me para uma reunião em sua casa, colocando-me, com 33 anos de idade, como presidente executivo da Consultec. Em seguida, traçou um plano de sobrevivência para a nossa corporação. A minha equipe principal de trabalho era formada por três jovens engenheiros, todos praticamente da mesma idade – José Antonio Rodrigues, Sérgio Rodrigues e Fernando Mauro Carvalho. Com competência extraordinária, tio Glycon conduziu os destinos da Consultec.

Lembro-me de algumas conversas que com ele mantive. Talvez o mais importante que ele tenha me ensinado é que, quando somos sérios, o impossível não integra o nosso dicionário de vida. E que todos os problemas devem ser enfrentados com calma e bom humor. Desistir jamais, perseverar sempre! E como ele me disse numa das nossas últimas conversas: “Honra e dignidade é uma coisa muito própria, que não poder ser comprada nem vendida.” Penso que ele tinha a idade que tenho hoje (71 anos) quando me orientou no passado.

Em meu primeiro livro, “O social inadiável”, de 1984, criei um indicador de condicionamento social praticamente idêntico ao IDH, que viria a ser formulado pela Organização das Nações Unidas em 1990. Portanto, o meu veio seis anos antes! Esse trabalho foi dedicado a pessoas que eu muito prezava, e entre elas estava lá o tio Glycon. É claro que, nas longas reuniões que mantivemos em Ipanema ou no Centro da cidade, conversávamos sobre vários outros temas. Um deles era a ausência de indicadores de bem-estar social. Quando olho para esse meu livro de quase 30 anos passados, vejo-me também a conversar com Glycon de Paiva.

 

ostaria de ver o Brasil pulsando melhor do que a China em valores quantitativos e qualitativos. Tenho a esperança de ainda assistir a esse filme real. O tempo passa, a esperança, jamais! Ninguém me enganou sobre a finitude da vida, mas estou com Roberto Campos ao afirmar que “ficar velho é uma… Fazer o quê?” Nos meus jogos mentais, denomino esse esforço pela industrialização de ponta no país de “Movimento dos iluminados”. Por que não enfrentá-lo ou pelo menos lançar as bases (rapidamente) para sua posterior (ou imediata) explosão? Modelo chinês já!

Muitos dos grandes atores ainda estão presentes (e bem presentes). São eles Eliezer Batista, Antonio Dias Leite, João Paulo dos Reis Velloso e “velhas” equipes da elite da Vale, da Petrobras, da Consultec, do BNDES, entre outras. Julgo que é a hora e a vez de revigorar (ou renascer) o “Movimento dos iluminados”. Convocar Jorge Gerdau, Jorge Paulo Lemann, Marcel Teles, Carlos Alberto Sicupira, os “Velhos Leões” de São Paulo (com os dentes ainda tinindo). Do Rio de Janeiro, sairia Eike Batista, entre outros empresários. Viriam também as equipes de excelência da Sudene, Sudam, do BNB e do Basa. A partir daí, seria o momento de reunir todos esses personagens, ordenar, sistematizar e agir.

A China não poderá ser melhor do que nós. Igual, talvez! Como diria alguém: “Vontade, calma e bom humor!” Chegaremos lá, rapidinho. O povo agradecerá!

 

O articulista é professor da Fundação Getulio Vargas

luizfernando.pinto@fgv.br

 

 

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