Um cachorro chamado Keynes e seu dono republicano

João Sicsú, Economista

 

Dia 2 de novembro de 2011.

O dia dos mortos. No curso introdutório de economia (rotulado “Economia

10”) da Universidade de Harvard, os alunos ressuscitaram um debate adormecido. Entregaram uma carta ao renomado professor Gregory Mankiw informando que estavam se retirando da sua sala de aula em protesto contra o conteúdo do curso que o economista estava lecionando. Escreveram:

 

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

“Hoje, estamos saindo de sua aula, Economia 10, a fim de expressar o nosso descontentamento com o viés dado a este curso de introdução à economia. Estamos profundamente preocupados com a maneira como que esse viés afeta os estudantes, a Universidade e a sociedade em geral.”

 

Greg Mankiw é bastante conhecido (e muito admirado por inúmeros economistas brasileiros). Tem livros traduzidos para o português e vastamente adotados nos cursos de graduação de economia no Brasil. E muitos de seus artigos acadêmicos são utilizados nos cursos de mestrado e doutorado. Ademais, de 2003 a 2005, foi presidente do Conselho de Consultores Econômicos do presidente George Bush. Hoje, é assessor do pré-candidato republicano Mitt Romney à Casa Branca em 2012.

De volta à carta. Em seguida, o texto dos estudantes explicita o viés mencionado: “Não há justificativa para a apresentação de teorias econômicas de Adam Smith como sendo mais essenciais ou básicas do que, por exemplo, a teoria keynesiana.”

Segundo os estudantes, o curso teria a tendência de valorizar a teoria da “mão invisível” do mercado, a ideia fundamental do pensamento smithiano, em detrimento das visões que valorizariam o papel do Estado, a concepção keynesiana, como promotor do equilíbrio econômico e do bem-estar social. Aparentemente, os alunos têm razão. Cursos de introdução à economia devem apresentar uma visão ampla da teoria, mostrando que existem diversas possibilidades de leitura da realidade econômica. Embora jovens, os alunos sabem as consequências de cursos tendenciosos:

 

“Graduados de Harvard jogam um papel importante nas instituições financeiras e na definição de políticas públicas em todo o mundo. Se Harvard não equipar seus alunos com uma compreensão ampla e crítica da economia, é provável que suas ações prejudiquem o sistema financeiro global. A prova disso são os últimos cinco anos de turbulência econômica.”

 

Os alunos não se retiraram da sala de aula para voltar para casa. Foram para as ruas.

 

“Estamos saindo hoje para nos juntar a uma ampla marcha em Boston para protestar contra a mercantilização do ensino superior, que é parte do movimento global “Occupy”. Já que a natureza viesada do curso Economia 10 simboliza e contribui para a crescente desigualdade econômica nos Estados Unidos, nós estamos saindo da aula de hoje tanto para protestar contra a sua discussão inadequada da teoria econômica básica, como para emprestar o nosso apoio a um movimento que está mudando o discurso americano sobre injustiça econômica.”

 

Mankiw, depois de um mês do ocorrido, se pronunciou em sua coluna do New York Times de 3 dezembro de 2011. No artigo, argumenta, como esperado, em defesa do seu curso e da sua trajetória profissional. Vale a pena mencionar o argumento central do seu texto:

 

”… minha (…) reação foi de tristeza ao perceber como mal informados parecem estar os manifestantes de Harvard. Tal como acontece com grande parte do movimento “Occupy” por todo o país, suas queixas me parecem ser um apanhado de platitudes anti-establishment sem uma análise realística ou claras prescrições de política.”

 

A resposta de Mankiw é arrogante: desqualifica seus alunos. Manifestariam porque estariam mal informados. Para o professor, seria óbvio: alunos bem informados não se rebelam. Em outras palavras: manifestação é coisa de ignorante. Seu diagnóstico se estende aos manifestantes do movimento “Occupy”.

A falta de sensibilidade social de Mankiw impede que reconheça que, em qualquer movimento contestatório, ao longo da história e mundo afora, manifestantes expressam fundamentalmente insatisfação e vontade de mudança, muitas vezes de forma confusa e difusa. Movimentos contestatórios são movimentos de negação do que existe e não movimentos de construção de algo novo.

O que Mankiw espera dos desalentados que ocuparam Wall Street? Espera que saibam as causas da desigualdade social americana? O que Mankiw espera de seus alunos do curso de introdução à economia? Espera que saibam as diferenças entre as diversas correntes de pensamento econômico?

Eles não saberiam responder a essas perguntas. Mas são pessoas que carregam valorosos sentimentos de transformação. A história bem-sucedida para os povos do mundo inteiro sempre foi feita pelos rebeldes, contrariados, descontentes, revoltados, e desgostosos. São sentimentos dessa natureza que provocam as grandes mudanças sociais, que ocorreram pela via eleitoral ou pela via revolucionária.

Em Harvard, houve debate intenso na internet sobre o ocorrido na sala do professor Mankiw. Mais de 200 postagens. Os defensores do professor mencionaram que não poderia ter havido viés na condução do curso, já que Mankiw é um keynesiano: “Tem até um cachorro border terrier chamado Keynes.”

Se Mankiw é um keynesiano, pensaria o cidadão bem informado, ele segue em algum grau as ideias do economista inglês, falecido em 1946. A ideia central do pensamento de John Maynard Keynes é que as economias devem operar em pleno emprego com estabilidade macroeconômica. Keynes não acreditava que a força do mercado por si só seria capaz de levar a economia para esta situação desejável.

A existência de incertezas, dúvidas em relação ao futuro desconhecido, paralisaria as decisões de investimento em máquinas e equipamentos capaz de gerar empregos. Empresários precisam de uma forte crença de que haverá demanda pelos produtos que são produzidos “hoje”, mas que serão vendidos “amanhã”. Na falta desse humor otimista, paralisam suas atividades… gerando desemprego.

Para Keynes, o Estado é a entidade redutora de incertezas na economia. Para tanto, poderia utilizar diversas políticas, procedimentos, regras e programas. Por exemplo, poderia construir escolas, hospitais e infraestrutura, o que geraria empregos e um ambiente de consumo que estimularia empresários a investirem em novas fábricas, o que geraria mais empregos.

Na visão de Keynes, a economia capitalista é inerentemente incerta. Seu futuro não pode ser desvendado no presente. Mas o Estado existe, pode e deve ser utilizado para formar convicções positivas acerca do futuro. A economia capitalista realiza “profecias” coletivas: quando muitos acreditam que o futuro será desastroso, poupam para se precaver, e o futuro confirma as profecias negativas; quando muitos acreditam que o futuro será próspero, investem no mundo real, e o futuro confirma as expectativas otimistas.

Para Keynes, indivíduos são racionais. Tomam decisões de acordo com suas expectativas em relação ao futuro. Suas decisões produzem resultados reais: emprego e renda. O Estado tem o papel de, ao reduzir incertezas, estimular decisões que possam gerar mais empregos e mais renda.

São essas razões que levaram Keynes a valorizar o papel do Estado na sociedade capitalista. Keynes não acreditava que a simples competição sem regras entre indivíduos e empresas poderia gerar um estado de bem-estar e justiça social. Em um mundo concorrencial e sem regras, era esperado que a sociedade incorresse em alguma perda porque, em uma disputa, sempre ocorrem custos. E, ademais, era esperado que desaparecessem os menores simplesmente porque são menores.

Em 1926, Keynes escreveu:

 

“Se levarmos a sério o bem-estar das girafas, não devemos menosprezar o sofrimento daquelas de pescoços mais curtos, que morrem de fome, ou as folhas doces que caem no chão e são pisadas na luta ou a superalimentação daquelas de pescoços compridos.”

 

Inúmeras interpretações foram construídas a partir das ideias do economista inglês. Uma das mais curiosas é exatamente a escola de pensamento da qual Mankiw é “sócio fundador”: o novo-keynesianismo.

Essa escola faz lembrar um episódio lamentável da história brasileira, pelo menos em um aspecto específico. Durante os anos de prisões, perseguições e mortes da ditadura militar (1964-1985), os torturadores adotavam os nomes de guerra dos torturados que não colaboravam. Adotavam seus codinomes como resultado de sentimentos de ódio e respeito.

 

Mankiw rejeita com veemência as ideias de Keynes, mas adotou o rótulo de novo-keynesiano em homenagem ao maior conjunto de ideias a que se opõe. Mankiw é um anti-keynesiano. As palavras de Mankiw contra Keynes são intelectualmente violentas e debochadas. O perfil de Mankiw se encaixa no republicanismo americano de George W. Bush sem causar desconforto.

Mankiw deveria ter respondido no seu artigo publicado no New York Times aos seus alunos rebeldes que, de fato, não recomenda a leitura das obras de John Maynard Keynes. Em artigo acadêmico, de 1992, escreveu: “…pode-se pensar que ler Keynes é uma parte importante do modo keynesiano de fazer teoria. De fato, exatamente o oposto é o verdadeiro.”

Justificou sua (não) recomendação afirmando que está empenhado em “explicar o mundo e não em esclarecer os pontos de vista de um homem específico”. Ele justificou por que considera dispensável a leitura da principal obra de Keynes, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, publicada em 1936:

 

“A Teoria Geral é um livro obscuro: não tenho certeza se mesmo Keynes sabia exatamente o que realmente queria dizer. Ademais, depois de 50 anos de progresso da ciência econômica, a Teoria Geral é um livro desatualizado.”

 

E concluiu de forma debochada, expressando seu desprezo pela leitura de uma obra clássica da ciência econômica: “Se a economia novo-keynesiana não é uma verdadeira representação das posições de Keynes, tanto pior para Keynes.” Finalizou: “Nós estamos numa posição melhor do que a de Keynes para entender como funciona a economia.”

Havia ainda uma informação no texto de Mankiw publicado no New York Times que não foi debatida. Talvez não tenha sido debatida porque não faz parte da pauta econômica. Ou talvez não tenha sido debatida porque não causou desconforto ao cidadão americano. Informou Mankiw:

 

“A administração da universidade, que tinha ouvido falar sobre o planejamento do protesto, enviou vários policiais, como medida de precaução, para sentar na minha classe no dia [da manifestação]. Felimente, eles não foram necessários.”

 

As turmas nesses cursos introdutórios das grandes universidades americanas possuem centenas de estudantes e são lecionados em auditórios. Os alunos não são capazes de reconhecer todos os seus colegas. Assim, é fácil infiltrar policiais em uma sala de aula.

O espaço físico de uma sala em aula pertence somente aos professores e alunos. Mas Mankiw foi informado de que policiais estavam dentro da sua sala de aula. Inacreditável: uma força policial dentro da sala de aula “como medida de precaução” contra as consequências de leitura de uma carta estudantil.

A saída de aula dos alunos de Mankiw foi filmada e está disponível no YouTube: uma saída tranquila, um protesto pacífico. Mas sem dúvida: o dono do cachorro chamado Keynes somente poderia ser republicano (!!!), para aceitar a presença da polícia em “território acadêmico”.

 

Oocorrido na sala de aula de

Greg Mankiw é apenas um sinal, um pequeno sinal, do  comprometimento da vida acadêmica americana na área de economia com interesses que não são científicos. A vida acadêmica americana na área de economia, salvo raras exceções, é anti-keynesiana, tem alma republicana e mantém relações simbióticas com Wall Street.

Os economistas acadêmicos americanos criaram, a partir dos anos 1980, um modelo profissional que, infelizmente, tem sido copiado fora dos Estados Unidos. O roteiro proposto aos estudantes de pós-graduação e aos jovens professores de economia é conhecido. Deve-se buscar publicar artigos científicos nas mais conceituadas revistas. Contudo, o que é considerado “conceituadas” depende de um pequeno grupo de professores de Harvard, Columbia, MIT e outras poucas. Temas e métodos relevantes são estabelecidos por este pequeno grupo. O que não está alinhado é rejeitado.

O pesquisador bem-sucedido ganha espaço nos meios de comunicação para divulgar suas pesquisas e para comentar o desempenho da economia. Como seus comentários são amigáveis ao sistema financeiro, são contratados para fazer pesquisas para bancos e compor seus conselhos de administração.

Os salários que recebem nas universidades passam a compor uma pequena parte das suas remunerações. Enriquecem, passam a ter patrimônios superiores a uma ou duas dezenas de milhões de dólares. Contudo, não podem largar as universidades, já que precisam do rótulo de “professor, pesquisador… de Harvard” para compor a sua imagem pública de estudioso, cientista e não comprometido com interesses específicos. Falam nas TVs, na qualidade de analistas isentos; possuem colunas nos principais jornais, mas assinam seus artigos como professores – não como consultores do sistema financeiro.

Reproduzem em sala de aula as ideias que divulgam em suas pesquisas e nos meios de comunicação. Afinal, suas fontes pagadoras são anti-keynesianas porque não desejam ser reguladas. Suas fontes pagadoras têm força política para nomear membros da equipe econômica governamental – seja democrata, seja republicana. Suas fontes pagadoras colocam bilhões de dólares nas mãos de candidatos e lobistas.

O professor americano de economia “bem-sucedido” tem, ainda, uma tarefa importante: formar quadros para trabalhar no sistema financeiro e para reproduzir suas ideias dentro das universidades, nos meios de comunicação e no interior do governo. Ao longo de décadas foi formada uma rede social e profissional que remunera com valores exorbitantes executivos de bancos, professores e jornalistas econômicos.

Todos são muito bem pagos para realizar palestras, para manter suas posições estratégicas nas universidades, para escrever pequenos artigos e para participar de conselhos de administração de bancos. Neste mundo não existe isenção, só existe alinhamento. O evento corrido em Harvard, na sala de Mankiw, faz parte desse imbróglio em que o interesse científico coletivo cedeu lugar ao interesse de enriquecimento de pequenos grupos.

 

O articulista é professor do Instituto de Economia da UFRJ

joaosicsu@gmail.com

 

 

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