Um liberal ilustre e desconhecido

Um liberal ilustre e desconhecido

Helio Cannone

 

Em sua resposta ao ministro Walter Braga Netto na reunião ministerial realizada em 21 de maio de 2020, o ministro da economia, Paulo Guedes, demonstrou forte hostilidade com qualquer ideia de maior protagonismo econômico por parte do Estado. Na ocasião, ele afirmou que lera oito livros sobre cada processo de reestruturação de economias nacionais após a Segunda Guerra Mundial e que também a obra do economista John Maynard Keynes “[…] três vezes no original […]” (BRASIL, 2020, p. 60).  Segundo Guedes, o caminho seguido por aqueles países teria sido o de reformas estruturantes para garantir o funcionamento da economia de mercado e dar condições para a liberdade econômica. Qualquer coisa que fugisse disso se trataria de dogma ou literatura obsoleta, tal como o caso do economista britânico supracitado, o qual ele considera próximo da visão de esquerda. O que Paulo Guedes ignora é que o próprio John Maynard Keynes se considerava um liberal e tentava dar uma resposta política e econômica às crises que percebia no seu contexto histórico de produção intelectual a partir dessa visão de mundo.

Segundo conta o historiador Tony Judt (2007) em seu clássico “Pós-guerra”, a história econômica da Europa naquele período teria sido uma inversão do que era praticado nas décadas anteriores. Se antes os governos cortavam gastos e defendiam uma política severa de austeridade, entre as décadas de 1940 e 1950 consolidou-se uma visão de que os investimentos públicos deveriam ser ampliados e que o próprio Estado era um ator na economia. Em dados do autor:

Entre 1950 e 1973, os gastos do governo elevaram-se de 27,6% para 38,8%, em relação ao produto interno bruto na França; de 30,4% para 42%, na Alemanha Ocidental; de 34,2% para 41,5%, no Reino Unido; e de 26,8% para 45,5%, na Holanda – numa época em que o produto interno crescia em ritmo sem precedentes, nunca mais igualado. O montante maior das despesas era com seguros, pensões, saúde, educação e habitação (JUDT, 2007, p. 368).

Não só na Europa, mas também nos Estados Unidos a ortodoxia econômica estava em modificação. Tendo como marcos os efeitos da crise de 1929 e a emergência de uma classe trabalhadora organizada, os anos 1930 representaram um conjunto de medidas que a bibliografia por vezes classifica de “proto-keynesianas” (HALL, 1986; WIER, 1986; JUDT, 2007).  Apesar do anacronismo inerente ao termo, de fato, naquele país, o New Deal de Theodore Roosevelt já pressupunha em 1933 um Estado protagonista na atividade econômica e propiciador de bem-estar social que só seria formalizado em uma teoria mais rígida por Keynes na publicação em 1936 de “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”.

Insight Inteligência - artigos e ensaios fora da curva

O peso do auxílio norte-americano através do Plano Marshall para a reestruturação da Europa também não deve ser menosprezado. Para além do esgarçamento do entendimento sobre quais setores caberia a intervenção do Estado em plano doméstico, o capital público externo foi investido em áreas as quais o investimento privado não alcançava. O conjunto dessas questões teria contribuído para formar uma concepção geral de “Estado previdenciário” (JUDT, 2007, p. 337), que pressupunha tributação progressiva, aumento dos gastos públicos, oferta de serviços e valorização salarial. Essa concepção de Estado fundar-se-ia na ideia de que ele servia para garantir a qualidade de vida de seus cidadãos, tanto diretamente pelo fornecimento de serviços e de empregos públicos quanto indiretamente pelo planejamento econômico em áreas estratégicas, visto que se passou a entender tanto entre os atores institucionais quanto entre os economistas que o setor público era mais eficiente que o mercado deixado livre enquanto modo de equilibrar a economia e garantir estabilidade social. Tony Judt sintetiza esse entendimento em uma passagem:

A noção de que era preferível deixar tais questões ao exercício do interesse próprio esclarecido e do funcionamento do livre mercado, para bens e ideias, era considerada nos círculos hegemônicos europeus (políticos e acadêmicos) uma exótica relíquia da era pré-keynesiana: na melhor das hipóteses, o conceito traduzia a incapacidade de aprender com a Depressão; na pior, tratava-se de um convite e um apelo aos instintos humanos mais primitivos (p. 368).

No trecho do historiador conterrâneo de John Maynard Keynes, aparece pressuposto uma separação entre um período (ou “era”) entre o laissez-faire e o Estado interventor, cujo marco seria os escritos do economista.  A bibliografia tende a tratar sua obra como criadora de um novo mundo, com outra concepção de política, de economia e de sociedade. Não discordamos dos resultados obtidos e percebemos nas comprovações empíricas exposta acima pontos convincentes para diagnosticar essa mudança. No entanto, cabe averiguar como essa transição foi sendo gestada teoricamente nos textos do próprio Keynes. Se é verdade que o New Deal antecede sua principal obra de economia, não é verdade que ele é cronologicamente anterior aos seus escritos políticos. É igualmente falso reduzir suas ideias a um pacote econômico que possa ser aplicado como receituário em diversos países.

Enquanto figura próxima do Partido Liberal britânico, Keynes gestou sua teoria a partir de seus textos políticos de intervenção no seu contexto nacional, no qual era profundamente temeroso do colapso do sistema capitalista.  Visto como cercado entre o socialismo de corte marxista que ele percebia no Partido Trabalhista e a enrijecida ortodoxia econômica do Partido Conservador, ele interveio no debate defendendo uma terceira via que, em sua concepção, era liberal. O problema que ele tentava resolver era como conciliar o capitalismo e sua mentalidade empreendedora com o bem-estar social.

Em 1931, John Maynard Keynes publicou uma coletânea de textos seus que datam desde 1919. Originalmente, eram escritos tirados de outros livros, de intervenções em jornais, palestras e panfletos que o economista achou por bem reunir enquanto obra, sobre o título “Essays in persuasion”. Segundo ele conta no prefácio, tornava-se urgente a mudança no entendimento ocidental sobre a relação entre governo, economia e sociedade. Para ele, sem uma organização devida a fim de utilizar os recursos disponíveis para conciliar as questões econômicas com problemas de ordem social e moral, o próprio modelo de sociedade capitalista poderia colapsar.

O principal alvo de crítica de Keynes era a ortodoxia econômica de corte clássico – ou neoclássico – que teria como representante o Partido Conservador britânico. Por outro lado, não era menor o seu temor da aproximação da classe trabalhadora com o socialismo advogado pela Partido Trabalhista. No decorrer dos textos, seu autor demonstra a percepção de si mesmo como uma terceira via que conciliaria as reivindicações tidas por ele como justas entre esses dois outros lados. Ele partilhava com os conservadores a preocupação sobre a estabilização econômica e a visão do capitalismo como modelo mais eficiente e mais capaz de gerar uma boa vida comunitária (em potencial). Ao mesmo tempo, ele concordava com a crítica trabalhista quanto ao descaso social gerado pelo modelo de austeridade praticado e a diminuição da qualidade de vida pela corrosão dos salários.

Em texto datado de 1919 sobre a inflação, Keynes provocativamente cita suposta passagem do revolucionário soviético Vladmir Lenin, no qual ele teria afirmado que a melhor maneira de desestabilizar o capitalismo seria pela corrosão do valor da moeda. Tendo em vista a política praticada pelo Tesouro britânico, o autor apontou que, com inflação, os governos confiscariam arbitrariamente parte da renda dos cidadãos. A alta inflação que o governo estaria mantendo, alimentaria um sentimento de ódio tanto pelo setor produtivo da burguesia quanto pelo proletariado contra o grupo dos investidores (os “profiteers”) que enriqueceriam pelo mesmo mecanismo que os outros empobreceriam.

Desse modo, sem querer, o governo britânico estaria agindo tal como a liderança da revolução russa gostaria.  Entretanto, os “profiteers” seriam mera consequência da alta de preços, não sua causa.  Essa classe seria representante, na verdade, dos empreendedores do capitalismo, fundamentais para a produzir inovação e reprodução do sistema. Os verdadeiros culpados seriam os governos inertes no combate à inflação. Já apontando sua crítica à ortodoxia econômica vigente, Keynes responsabilizava não os atores individuais, mas o fato de que o governo mantinha práticas ultrapassadas de teorias produzidas no século XIX e que não responderiam mais aos dilemas do século XX.

A crítica dos problemas sociais e políticos da inflação é continuada em texto retirado de “A Tract on Monetary Reform”, escrito em 1923.  Sua preocupação principal com a questão permanece centrada em seus efeitos sociais e na desestruturação dos fundamentos do capitalismo que esse desarranjo representaria, tudo por culpa de um desencontro entre as ideias econômicas antigas e as exigências do mundo novo.  Em seu argumento, desde 1914 teria se iniciado um período inédito de flutuações na moeda, diferente do que ocorreria nos anos anteriores. O Século XIX teria se guiado pela ideia de que o autointeresse produzia bem comum e que poupança gerava prosperidade.  Naqueles mesmos anos, teria se formado uma classe média de investidores com fortuna modesta, cuja fonte da riqueza era títulos em moeda corrente.

Um dos efeitos da Primeira Guerra Mundial e da política monetária feita durante ela foi o comprometimento da renda da classe dos investidores.  A consequência negativa que Keynes esperava era o de isso afetar a mentalidade de poupança e de investimento da classe média. Para ele, essa salutar cultura que surgiu no século XIX não se sustentaria com a política monetária de laissez faire. Caberia então ao Estado intervir para manter o valor da moeda estável.

Os efeitos culturais da crise permaneceriam como preocupação de Keynes quando ele aponta que a desvalorização monetária abalaria os fundamentos que davam ao capitalismo sua razão de ser – ou, em termos weberianos, seu espírito – qual seja, a relação equilibrada entre mérito e recompensa, na qual existiria uma desigualdade legítima validada por esses critérios. Nessa espécie de contrato social capitalista – ou modelo funcionalista de sociedade – pressuposto por Keynes, o homem de negócios só seria tolerado pelas demais classes sociais porque ele contribuiria ativamente para a comunidade com o seu investimento.  A desvalorização monetária e a imprevisibilidade daqueles anos teriam transformado os investimentos em espécie de esquema de sorte ou azar, que desencorajava a iniciativa e a criatividade dos empreendimentos.

Já do lado do trabalhador assalariado, Keynes diagnosticava que os sindicatos e demais associações teriam historicamente aumentado sua pressão por melhorias no salário e pela diminuição da jornada de trabalho. Entretanto, a experiência da guerra também teria modificado sua postura, pois lhe abriu um novo horizonte, visto que na figura do soldado o homem proletário se percebeu como mais bem alimentado, com melhores roupas e melhores condições gerais de vida do que na experiência das fábricas. Já as mulheres, por sua vez, entraram no mercado de trabalho e ampliaram seus horizontes de ganhos e de lugar social.

Na medida em que os empreendedores viessem aumentando seus lucros, eles não teriam problemas em atender esse conjunto de demandas sociais. Porém, o medo generalizado de queda do valor monetário – e da consequente queda de preços – abalaria negativamente o processo produtivo como um todo, pois afetaria a disposição de investimento. Afinal, se o preço pode cair, o investidor e o empreendedor podem perder dinheiro ao invés de ganhar. Esse medo teria feito com que o empreendedor limitasse seus negócios em vez de expandi-los, o que empurraria os salários para baixo. Na visão de Keynes, o mundo dos negócios funcionaria a partir de expectativas. Por isso, a queda ou o aumento de preços interferiria nos investimentos e no processo produtivo.

O problema é que essa expectativa também afetaria a produtividade e o investimento, pois ela faria com que os atores agissem de uma maneira e não de outra.  O único remédio possível para essa oscilação seria o controle do padrão de valor por parte do governo; de modo, que se algo ocorresse para alterar os preços em uma direção, a autoridade de controle poderia tomar uma medida em sentido contrário e produzir estabilização. Assim, o contrato social capitalista seria mantido, pois se garantiria poupança para o investidor e produção para o empregado, a partir de uma régua comum definida de cima.

A crítica à inadequação entre as ideias econômicas e o mundo – que necessitava de um Estado interventor – continua no texto de 1926, intitulado “The end of laissez-faire”. O ponto ali é que o liberalismo econômico tal como vinha sendo praticado já estava em plena extinção e que, portanto, caberia uma postura consciente sobre esse movimento, rearranjando a sociedade para os novos moldes do capitalismo no século XX. Sua crítica à escola clássica e aos seus praticantes que lhe eram contemporâneos era de que a crença utilitarista de que o interesse individual sempre coincidia com o bem comum havia se provado falsa na realidade, para ele isso era uma incompreensão dos princípios iluministas do século XVIII (KEYNES, 1963, p. 312).

Segundo o economista, a experiência posterior teria demonstrado que a medida de controle e organização da economia estaria em uma mediana entre a iniciativa individual e o controle do governo.  O Estado não deveria atuar em esferas às quais indivíduos já se ocupariam de maneira eficiente, mas daquelas que estariam fora de sua alçada.  Isso se expressaria em questões relativas ao risco, incerteza e a ignorância, porque seriam fatores que, quando explorados, transformariam o investimento em uma loteria, produzindo alto desemprego, desigualdade de renda e desânimo de investidores, tal como Keynes demonstrou em seus textos acerca da inflação.

O economista não pretendia com essas ideias romper com o liberalismo – ao qual se filiava – mas apontar uma necessária revisão dessa ideologia para os outros tempo, separando essa filosofia política de uma suposta derivação econômica dela, que ele não via como uma relação necessária.

Estes pressupostos normativos de John Maynard Keynes reverberavam em sua recomendação pela criação de novas instituições públicas, tais como instâncias autônomas no Estado, que estivessem sujeitas ao Parlamento e que funcionassem como um corpo esclarecido que pensasse o bem comum (Idem, p. 313 e 314). Ele também recomendava a criação de uma instituição central de controle da moeda e do crédito e que coletasse e disseminasse dados sobre os negócios e os empreendimentos praticados no país, ou seja, uma espécie de Banco Central (Ibidem, p. 316).

Ao fazer esse conjunto de recomendações, o economista enfatiza que elas não iriam contra as bases do capitalismo, que para ele poderiam ser sintetizadas pelo entendimento de que o apelo intenso aos instintos individuais de querer fazer dinheiro e de amar o dinheiro são a força motriz da economia (KEYNES, 1963, p. 319).  Entre os modelos econômicos disponíveis, o autor acreditava que o capitalismo era o melhor e mais eficiente em produzir riqueza e que o problema que se colocava era o de conciliá-lo com as noções que a sociedade tinha de uma vida satisfatória. A outra alternativa disponível seria o socialismo, que ao seu ver era incapaz de dar uma resposta atualizada com as novas exigências, pois era baseado em uma fórmula anacrônica de textos escritos 100 anos antes.

A crítica ao socialismo já havia aparecido em texto datado de 1925, ou seja, um ano antes, cuja intenção do autor era explicar aos leitores sua identidade política. Em “Am I a liberal?”  Keynes faz um exame das associações políticas britânicas. A crítica ao Partido Trabalhista se dava porque ele seria liderado pelo setor que Keynes chama de “partido da catástrofe” (KEYNES, 1963, p. 324). Para o economista, a agremiação era controlada pela extrema-esquerda, cujas lideranças não eram intelectualmente capazes de gerir a coisa pública e nem prezavam pelas instituições liberais que ele tanto valorizava. Como se já não fosse o bastante, Keynes colocou um segundo problema: o Partido Trabalhista seria um partido seccional de uma classe que não era a sua.  Nas palavras do economista:

Ought I, then, to join the Labour Party? Superficially that is more attractive. But looked at closer, there are great difficulties.To begin with, it is a class party, and the class is not my class. If I am going to pursue sectional interests at all, I shall pursue my own.

When it comes to the class struggle as such, my local and personal patriotisms, like those of everyone else, except certain unpleasant zealous ones, are attached to my own surroundings. I can be influenced by what seems to me to be Justice and good sense; but the Class war will find me on the side of the educated bourgeoisie (KEYNES, 1963, p. 324).

Com o Partido Conservador ele pontuou que não concordava com seu conjunto de princípios, pois não acreditava que essa visão de mundo promoveria nem o interesse próprio nem o bem comum. Continuando na mesma tônica da crítica de outros textos, ele indicava que os conservadores reproduziriam teses anacrônicas da ortodoxia econômica do século XIX, com um capitalismo de base puramente individualista. Além do caos social gerado com isso, havia outro perigo, pois, essa cegueira os deixaria incapazes de discernir as reformas que o capitalismo precisava para ser salvo de bolchevismo (Idem, p. 327).

Assim, pela rejeição das outras ideias e pelo seu apreço à liberdade individual e à vida em sociedade, Keynes se identificava com o Partido Liberal. Só que o problema é que essa associação também estaria parada em questões históricas mortas. O partido precisaria se renovar, para se colocar como um partido de centro, adequados aos novos tempos e abandonando práticas ultrapassadas. Uma das pautas que o partido precisaria inserir em seu programa era a defesa da intervenção na economia e no fortalecimento de órgãos públicos de controle econômico, como o Banco da Inglaterra e o National Treasury.

Os liberais deveriam reivindicar que o Estado retomasse deveres aos quais abdicou, ao mesmo tempo que precisaria ser liberal em costumes, em temas tais como contraceptivos, posição da mulher no mercado de trabalho e leis relativas ao casamento.  Segundo Pedro Fonseca, Keynes tentou criar uma teoria do Estado que fosse um meio termo entre os totalitarismos e o liberalismo econômico predatório (FONSECA, 2010, p. 433).

Em 1929, esse apoio ao Partido Liberal se converteu na elaboração de um panfleto em coautoria com Hubert Henderson em apoio a David Lloyd George nas eleições britânicas. Nesse texto, já aparecem de forma explícitas pontos associados ao keynesianismo, tais como o papel do Estado como investidor e planejador econômico, as possibilidades de garantia de pleno emprego e a reforma do capitalismo por um Estado de bem-estar social.

Todavia, isso é formulado não nos termos de uma teoria macroeconômica, mas como uma “positiva política de desenvolvimento nacional” (HANDERSON, KEYNES, 1929, p. 3) para a Inglaterra, baseada em um reformismo progressista. O texto foi publicado pelo jornal britânico The Anthem and Athenaeum, periódico liberal no qual o autor já vinha colaborando nos anos anteriores. Mantendo o mesmo tom dos artigos aqui analisados anteriormente, a linguagem empregada é simples, pois o fim é convencer a esfera pública de suas ideias.

A crítica ao Partido Conservador e sua política econômica é mais enfática no texto do que o temor do avanço do socialismo do Partido Trabalhista, embora esse também seja elemento presente. Como agenda positiva, o panfleto propõe que a via por eles defendida poderia resolver o problema do alto desemprego no país, ao mesmo tempo em que garantiria crescimento econômico com políticas de industrialização. Para os seus autores, a visão de mundo dos conservadores contraria o próprio senso comum. Não existiria, portanto, uma lei natural – tal como a defendida pela lei de mercados de Jean Baptiste Say – que atuaria contra o pleno emprego. Na verdade, seria ruim para a economia que parte da população fosse mantida desempregada.  As altas taxas de população desocupada estaria afetando o próprio desenvolvimento do país, fosse pelo abalo moral que causava em seus cidadãos ou pelos seus efeitos negativos na produtividade e no investimento.

O programa liberal de Lloyd George buscava responder esse problema com uma mudança no olhar para a política econômica, substituindo austeridade por investimento público. Ele previa investir 100 milhões de libras para recuperar 500 mil empregos. O que para os autores era um custo baixo quando comparado com os gastos do fundo de desemprego. Em sua visão, o Estado estaria usando suas economias para manter pessoas em posição improdutiva em vez de usar esses recursos para investir em desenvolvimento e inovação. O foco do plano que resolveria isso se dava em três áreas: 1) protagonismo estatal no sistema nacional de transportes, com parcerias privadas; 2) política de habitação que almejava construir 200 mil casas por ano, evitando o crescimento de moradias precárias; 3) outros investimentos estratégicos para o desenvolvimento, como rede de telefonia, eletricidade e drenagem do solo (que poderia também contar com auxílio privado). Esses pontos garantiriam ao mesmo tempo emprego e produziriam efeitos duradouros no aumento da qualidade de vida e no dinamismo econômico do país. Portanto, era espécie de jogo onde só havia vencedores.

Nos cálculos de Handerson e de Keynes, cada um milhão de libras investido em melhoramentos de rodovias geraria cinco mil empregos, contando os especializados, não especializados e também os empregos indiretos que seriam possibilitados por esse incremento de infraestrutura e pelas novas demandas produzidas pelo investimento nessas áreas. Essa criação de empregos seria o ponto de partido de todo um mecanismo causal, pois ele teria efeito no aumento do poder de compra real; afinal, essas pessoas deixariam de receber auxílio e receberiam salários. Com isso, o comércio seria favorecido, e seu aumento de lucros aumentaria a expectativa de lucros dos investidores, que iriam sair do imobilismo gerado pela insegurança econômica e aplicariam mais capital em outras áreas.

Prevendo o tipo de crítica que poderia vir naquele contexto político, o panfleto dedica um capítulo para refutar a ideia de que seu plano é de cunho socialista. Nele, os autores são enfáticos em afirmar que planejamento estatal não é algo restrito ao socialismo e que essa visão seria anacrônica. O que definiria a ideologia não era a presença ou ausência de intervenção na economia, mas o seu sentido.  A proposta liberal de intervenção do Estado se constrói explicitamente no texto como diferente da proposta do Partido Trabalhista. Se o segundo pretendia socializar os meios de produção estatizando toda a atividade econômica, os liberais almejavam usar recursos públicos em situações de emergência ou para assistir a economia capitalista em áreas que a iniciativa privada não conseguiria sozinha suprir, ou mesmo nas quais precisasse de ajuda para atuar (HANDERSON, KEYNES, 1929, p. 33).

O Estado precisaria ter protagonismo na atividade econômica, pois ele seria o único ente social que concentraria capital que poderia ser investido em áreas-chave para instigar o investimento e permitir o crescimento econômico, em moldes capitalistas. Entre as áreas citadas como exemplo estavam: moradia, indústria elétrica, planejamento de canais e docas, reflorestamento, além de políticas de concessão e incentivo ao crédito para modernização de ferrovias e da atividade agrícola.

            O termo usado para criticar a política econômica defendida pelo Partido Conservador é o de classificá-la como “suicida” (Idem, p. 41). A ortodoxia do Tesouro o impediria de usar recursos públicos para aumentar o investimento, com medo de possíveis efeitos que não iriam ocorrer, pois, segundo advogam os autores, aumento de investimentos só geraria inflação em períodos de baixo desemprego e de crescimento econômico, o que estaria longe de ser o caso. O resultado da manutenção desse tipo de política estava sendo que os juros continuavam altos, o país estava atrasado no seu desenvolvimento e o desemprego estava elevado.

Na crítica feita através do panfleto, o problema não era só o desconhecimento técnico do Partido Conservador, mas o fato de que “a Política de medo e de contenção” (Ibidem, p. 44) seria inerente à ideologia da associação. Em contraste, os liberais seriam capazes de testar ideias novas, para criar um futuro que conciliava liberdade econômica e bem-estar. Entretanto, isso não ocorreu. O Partido liberal perdeu as eleições e o primeiro-ministro britânico escolhido foi Ramsay MacDonald, do Partido Trabalhista.

Naquele mesmo ano, a quebra da Bolsa de Nova Iorque abalou a ortodoxia econômica mundial, cuja resposta nos anos seguintes com o New Deal se assemelhava a vários dos pontos trabalhados nas últimas páginas, tais como a ideia do Estado como investidor na economia através de infraestrutura e setores estratégicos e sua função previdenciária e de bem-estar social. Porém, como aponta Margaret Weir (1989), para compreender a implementação dessa agenda tida como keynesiana, é preciso enquadrá-la em seus respectivos contextos nacionais.

Segundo a autora, os Estados Unidos não dispunham de uma estrutura burocrática com a autoridade igual ao do Tesouro britânico para barrar a aplicação dessas ideias, além de ter sido o país epicentro da crise econômica. Isso o forçou a responder ligeiramente aos seus efeitos sociais nocivos. Já na Inglaterra, essas medidas encontraram forte resistência tanto por parte do Partido Conservador, que as via como de esquerda demais, quanto do Partido Trabalhista, que as via como de direita demais.  O ano de 1947 é posto por Margaret Weir (1989) como uma virada, quando os conservadores passaram a considerar o keynesianismo uma maneira mais moderada de regulamentação da economia do que aquela almejada pelos trabalhistas.

Não foi como intelectual orgânico do Partido Liberal que John Maynard Keynes ficou célebre, mas como produtor de uma nova escola econômica, ou mesmo enquanto fundador da macroeconomia, contra o olhar microeconômico da teoria clássica e neoclássica (HOOVER, 2003; FONSECA, 2010). Tendo sua estratégia política dado errado, John Keynes considerou mais fácil convencer seus pares do que a esfera pública (WEIR, 1986; HOOVER, 2003). Assim, ele elaborou em forma de complexa teoria econômica seus pressupostos e sua análise sobre a realidade do capitalismo. Em 1936, foi publicado “A teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, no qual ele sistematizava em rebuscada linguagem e com modelos matemáticos certos conjuntos de ideias postas como aplicáveis de maneira universal, a partir de uma leitura de como se comportam os atores em conjunto na economia, em escala nacional. No contexto pós-Segunda Guerra Mundial, “As teses de Keynes caíram como uma luva para os defensores do intervencionismo econômico, da opção pelo pleno emprego e pelos impostos progressivos do Welfare-State” (FONSECA, 2010, p. 444).

Nesse ponto, a análise aqui feita de Keynes está em consonância com a hipótese de Christian Lynch (2013) na qual a separação entre teoria e pensamento tem como âncora a ideia de que o primeiro escreve em linguagem abstrata e o segundo disserta sobre o particular. Mas, na mesma direção do cientista político, podemos averiguar que no norte global a pretensão de universalidade está vinculada aos interesses que os atores políticos têm à sua volta quando escrevem. No caso de John Maynard Keynes, a via do pensamento não funcionou, e suas ideias só tiveram impacto na Inglaterra após sua morte. Já com a teoria, o economista conseguiu se aproximar da criação do mundo que ele não viveu para ver se expandir.

Após a Segunda Guerra Mundial, passou a haver um keynesianismo, mesmo sem Keynes e com relativa autonomia em relação a ele. Talvez, por isso, aos poucos foi sendo retirado do escopo dessa escola o liberalismo político tão caro ao economista britânico.  Ao mesmo tempo, seus adversários teóricos no decorrer do século XX – como Friedrich Hayek e Milton Friedman – construíram sua oposição com esse conjunto de ideias a partir de uma reivindicação um tanto quanto ideológica de que eles seriam os verdadeiros liberais, enquanto Keynes teria sido um estatista que, portanto, não poderia ter compromisso com essa doutrina. Entretanto, na leitura de seus textos políticos aprendemos que se vincular a uma tradição liberal não implica uma hostilidade para com o papel do Estado no bem-estar social e no desenvolvimento. Essa é uma lição que parte do liberalismo brasileiro precisa aprender.

 

Referências bibliográficas

BRASIL.  Transcriação de reunião ministerial de 22 de abril de 2020, disponibilizada através de laudo criminal. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2020/05/transcricao-video-reuniao22abr.pdf . Acessado em 26/08/2021.

FONSECA, Pedro Cézar. “Keynes: o liberalismo econômico como mito.” Economia e Sociedade, Campinas, vol. 19, n. 3, p. 425-447, 2010.

Gourevitch, Peter A. “Keynesian politics: the political sources of economic policy choices”. In: HALL, Peter (Org.). The Political Power of Economic Ideas: Keynesianism across Nations. Princeton: Princeton University Press, 1989. p. 87-106.

HALL, Peter A. “Introduction” In:______(Org.) The Political Power of Economic Ideas: Keynesianism across Nations. Princeton: Princeton University Press, 1989.

HOOVER, Keneth R. Economics as ideology: Keynes, Laski, Hayek, and the Creation of Contemporary Politics. Oxford: Rowman & Litltlefield, 2003.

JUDT, Tony. Pós-guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

LYNCH, Christian Edward Cyril. Por que pensamento e não teoria? A imaginação político-social brasileira e o fantasma da condição periférica. Revista Dados, v. 56, n. 4. Rio de Janeiro, 2013. p. 727-766.

NAPOLEONI, Cláudio. O pensamento econômico do século XX. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1979.

KEYNES, John Maynard. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

________. Essays in persuasion. Nova Iorque; Londres: Norton & Company, 1963.

KEYNES, J.M.; HENDERSON, H.D.; “Can Lloyd George do It? An Examination of the Liberal Pledge”. The Nation and Atheneum, 1929.

WEIR, Margareth. “Ideas and Politics: The Acceptance of Keynesianism in Britain and the United States”. In: HALL, Peter (Org.). The Political Power of Economic Ideas: Keynesianism across Nations. Princeton: Princeton University Press, 1989. p. 53-86.

WINCH, Donald. “Keynes, keynesianismo and state intervention”. In: HALL, Peter (Org.). The Political Power of Economic Ideas: Keynesianism across Nations. Princeton: Princeton University Press, 1989. P. 107-127.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *