Van Gogh, o eu, o outro e o mito

Van Gogh, o eu, o outro e o mito

Eduardo Arguelles

Identidade múltipla e a paradoxal construção de um artista único

Por razões não bem definidas, a história da arte tem utilizado o termo pós-impressionismo para destacar três nomes que, hoje, desfrutam de grande prestígio internacional. Temas de inúmeros livros, matérias jornalísticas, peças teatrais e cinematográficas: Paul Cézanne, Paul Gauguin e Vincent Van Gogh.

Em relação à cronologia que justificaria o prefixo pós, pode-se constatar o erro, já que os três foram contemporâneos do movimento impressionista. Cézanne nasceu em 1839, Gauguin em 1848 e Van Gogh em 1853, sendo, portanto, da mesma geração de Sisley (1839), Monet (1840) e Renoir (1841). Todos os seis ativos durante as últimas décadas do século XIX. Sofrendo ou determinando possíveis influências mútuas, de maior ou menor intensidade, no mesmo e efervescente universo intelectual e artístico da época. Cézanne (1906), Gauguin (1903) e Van Gogh (1890) faleceram antes de Monet (1926) e Renoir (1919), sendo que Gauguin no mesmo ano que Pissarro, o mais velho do grupo inicial do movimento impressionista.

O terceiro artista do chamado pós-impressionismo é o mais famoso e reverenciado entre eles, Vincent Van Gogh. Para alguns, o maior pintor do riquíssimo século XIX; para outros, o maior dos pintores modernos. Para muitos, o mais importante artista da história da pintura mundial. A apreciação francamente positiva do trabalho de Van Gogh, no entanto, não caracteriza unanimidade, havendo restrições especialmente em relação a supostas limitações formais de um artista considerado por boa parte do público leigo como autodidata.

A dramaticidade que envolveu sua vida e as circunstâncias de sua morte certamente concorrem para a passionalidade que, com frequência, cerca a avaliação do seu trabalho artístico, provocando reações extremadas e dificultando a apreciação isenta. Van Gogh seria emblemático do “gênio incompreendido” e não valorizado em vida, assim como o protótipo da relação arte-loucura que cerca alguns dos maiores gênios da humanidade. Nesse cenário controverso que perdura há mais de um século após a morte do artista, é natural que a própria exacerbação expressiva de sua arte tenha também contribuído para interpretações e relatos apaixonados envolvendo vida, obra, público, historiadores, escritores de ficção, dramaturgos e cineastas. Sem qualquer veleidade de querer arbitrar tantas polêmicas, parece mais adequado abordar os conflitos e contradições que cercam a vida desse grande artista utilizando dados reais disponíveis em sua historiografia, o que talvez permita compreender melhor o eu, o outro e o mito.

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O EU

Infância e juventude: Nascido em 1853, na Holanda, Van Gogh é descrito como criança e jovem introspectivo e de difícil comunicação, o que teria se agravado com o regime de internato e isolamento imposto a ele aos 11 anos de idade. A sua tendência à rebeldia se manifestou precocemente com o retorno à casa paterna, por decisão própria, um ano após o início do internato. Importante destacar que Van Gogh nasceu um ano depois da morte do irmão Vincent e que o mesmo nome dado a ele teria causado problemas precoces de identidade, considerando-se Van Gogh apenas um substituto do irmão morto.

Historiadores e psicólogos veem nas pequenas figuras em dupla, presentes em alguns dos seus desenhos e pinturas, a expressão de uma dualidade subalterna e conflituosa. Também a ligação e a dependência em relação ao irmão Theo teria sido consequência do mesmo fenômeno, do qual seria refém até a morte. Uma personalidade dual na qual conviveriam subalternidade e rebeldia.

A relação inicial com a arte: A família de Van Gogh influenciou o artista em sua ligação profunda com a arte. Sua mãe, membro de família abastada de Haia, teria estimulado o jovem na prática do desenho. Além disso, Van Gogh tinha três tios, irmãos do seu pai, trabalhando com o comércio de arte. Através do tio Cent (redução do nome Vincent, comum na família), Van Gogh foi admitido, aos 16 anos, na empresa Goupil, em Haia. Após período de treinamento, o futuro artista, aos 20 anos, foi enviado para trabalhar na Goupil de Londres, da qual foi afastado após dois anos. Depois de breve período na Goupil de Paris, retornou à casa paterna vivenciando forte frustração.

A opção religiosa: O pai e o avô paterno de Van Gogh eram pastores da Escola Missionária Protestante da Holanda. Após a demissão da Goupil, Van Gogh, também decepcionado com a recusa amorosa que sofrera em Londres, se voltou para a religião. Aos 23 anos, se ocupou com a tradução da Bíblia para o inglês, francês e alemão, tarefa que abandonou, substituída pelo desejo de se tornar pastor. Para tanto, viajou, em 1877, para Amsterdã com o objetivo de estudar teologia. Na cidade, fez concurso para a universidade local tendo sido reprovado. Van Gogh, no entanto, não desistiu do seu objetivo. Após preparação na Escola Missionária Protestante da Bélgica, aos 26 anos, tornou-se missionário no distrito de Borinage no qual conviveu com a pobreza extrema e as péssimas condições de vida dos mineiros locais. Por ter “exagerado” em sua solidariedade com os trabalhadores de Borinage optando por viver em condições semelhantes às deles, foi afastado da missão sob a alegação de “minar a dignidade do sacerdócio”. Ao retornar à casa dos pais, vivendo então em Etten, teria ocorrido a primeira tentativa da família de internar Van Gogh em um manicômio.

O início da carreira artística: Van Gogh desenhava desde menino, ampliando esse hábito quando morou em Borinage e, posteriormente, em Etten. Nesse período, desenhou compulsivamente, chamando a atenção de Theo, que o aconselhou a tentar a carreira de pintor. Por aceitar a ideia do irmão, Vincent viajou para Bruxelas ao final de 1880. Por intermediação de Theo, iniciou estudos formais com Willem Roelofs e, posteriormente, na Academia Real de Belas Artes, permanecendo em Bruxelas por poucos meses, retornando a Etten no início de 1881. Nesse ano, Van Gogh teve seu primeiro contato com o primo Anton Mauve, residente em Haia, realizando alguns trabalhos em carvão e pastel nos quais fica evidente seu talento como desenhista. Em 1882, Van Gogh retornou a Haia para um período mais prolongado de estudos com Mauve, porém, como ocorreu em toda a sua vida, teve desentendimento conceitual com o professor por rejeitar o estilo de ensino que privilegiava o desenho convencional através de modelos vivos e moldes de gesso. Nessa época, Van Gogh experimentou o uso da aquarela, mas se fixou na tinta a óleo e na pintura em tela, material comprado por Theo e utilizado por Van Gogh até o final de sua vida.

Em 1883 Van Gogh foi viver em Nuenen, na província do Brabante do Norte, novamente em companhia dos pais, pintando paisagens ao ar livre, naturezas mortas e figuras humanas. Passou a pintar também aquarelas, desenhando com as cores, mas, qualquer que fosse o meio utilizado, seus quadros mantinham a tendência do uso de tons escuros e terrosos, como na famosa tela “Os comedores de batata”, pintada em Nuenen em maio de 1885. Nesses dois anos em Nuenen, Van Gogh teve as primeiras oportunidades profissionais através do interesse de um comerciante de arte em Paris (cidade em que estava Theo) e da exposição de alguns quadros em Haia. Em ambos os casos não houve venda, possivelmente em razão dos tons sombrios que usava. Era o momento no qual os impressionistas já faziam sucesso com paletas vivas e luminosas. Van Gogh deixou Nuenen sob a suspeita de ter engravidado uma jovem camponesa, uma de suas modelos ocasionais.

Em novembro de 1885 Van Gogh viajou para Antuérpia, local em que estudou a obra de Rubens e passou a colecionar e a usar gravuras japonesas como fundo de suas pinturas. A partir de janeiro de 1886, após exame de admissão, Van Gogh passou a frequentar a Academia Real de Belas Artes de Antuérpia, matriculado no curso de pintura e desenho. Como de hábito, a experiência durou pouco, após confrontos com o diretor da academia e com o seu professor de desenho, Eugène Siberdt.

A vida em Paris: Em março de 1886, finalmente Van Gogh e Theo passaram a viver na mesma cidade, Paris, dividindo um apartamento em Montmartre. A proximidade inevitavelmente iria levar a conflitos, ocorrendo curto período de afastamento. Em Paris, Van Gogh desfrutou da companhia de pintores como Emile Bernard e Henri de Toulouse-Lautrec, conhecendo mais de perto o trabalho dos impressionistas e recebendo influências pontilistas e divisionistas de Seurat e Signac. Teve contato com Julien Tanguy (o conhecido “Père” Tanguy), dono de uma loja de material de pintura na qual Tanguy vendia trabalhos de Cézanne, Seurat, Signac, dentre outros. No final de 1887, Van Gogh conheceu Gauguin e exibiu seu trabalho ao lado de Emile Bernard, Anquetin e Toulouse-Lautrec, em Montmartre, trocando obras com Gauguin e expandindo seu círculo de amigos artistas. Em Paris, Van Gogh teria pintado cerca de duzentos quadros em dois anos e se tornara alguém relativamente conhecido no ambiente artístico da cidade. Sua pintura era inovadora e moderna, sendo bem aceita entre seus contemporâneos. Nessa fase, Van Gogh poderia ter tido seu trabalho reconhecido e, talvez, consolidado a carreira de pintor. Sua paleta havia adquirido tons mais claros, luminosos e brilhantes, e a “onda modernista” já era aceita pelo público e por comerciantes de arte. Apenas a instabilidade psíquica de Van Gogh impediria seu sucesso e o levaria a sair de Paris, em fevereiro de 1888, deixando para trás momento tão promissor. Cai, portanto, por terra a ideia da não aceitação da obra de Van Gogh em Paris e a crença em boicote ao seu trabalho como razão para a viagem a Arles.

A maturidade artística em Arles: Van Gogh já havia pintado alguns dos seus mais conhecidos e admirados quadros em 1886 e 1887 em Paris, mas a história da arte celebra o período em Arles como aquele que consolidou sua maturidade criativa. Em Paris, havia tido algumas aulas com Fernand Cormon, ampliado sua paleta, pintado retratos, naturezas mortas e paisagens, estas em Asnières e ao longo do Sena. Ao lado disso, havia se excedido na bebida, no tabaco e na ausência de cuidados com a saúde. Arles serviria como o local ideal para começar uma vida mais saudável e manter contato mais intenso e íntimo com a natureza, pintando girassóis, ciprestes, colheitas e campos de trigo. Através de Gauguin, conhecera os artistas de Pont-Aven, com quem trocou obras, além de ampliar a amizade com Emile Bernard e Pierre Laval, expondo alguns trabalhos no Salão dos Artistas Independentes. Relativamente bem instalado na famosa Casa Amarela, Van Gogh pintou em um ano duas centenas de telas, entre as quais “Noite estrelada sobre o Ródano”, “O café à noite”, “Terraço do café à noite”, “Pesqueiros na praia de Saintes-Maries-de-la-Mer”, “Vaso com 12 girassóis”, “Carteiro Joseph Roulin” e “A casa amarela”.

Gauguin e a orelha cortada: Os irmãos Van Gogh conheceram Gauguin em Paris, e Theo manteve contato profissional com ele logo após o primeiro encontro. Por outro lado, Van Gogh passava por período difícil em Arles, queixando-se de isolamento e solidão, frustrado em sua ideia inicial de criar na cidade uma colônia de artistas.

A possibilidade de Gauguin visitar Arles estimulou a imaginação de Van Gogh que se mostrou ainda mais ansioso quando surgiu a possibilidade de Gauguin ir morar com ele. Pintou dois quadros que se tornariam históricos, a “Cadeira de Van Gogh” e a “Cadeira de Gauguin”, assim como decorou os quartos da Casa Amarela em que vivia. Ambos com temperamentos difíceis, seria natural que a relação mais estreita durasse pouco. Após os dois primeiros meses, o ambiente entre eles estava tenso. Van Gogh se incomodava especialmente com as críticas de Gauguin à sua maneira de pintar. Gauguin queria que Van Gogh não pintasse apenas o que via, mas também imagens de sua memória e imaginação. Gauguin é descrito como autoritário e arrogante, não parecendo ter nutrido amizade especial por Van Gogh. Este, ao contrário, tinha forte ligação e certa dependência em relação a Gauguin, sendo-lhe insuportável a ideia de Gauguin deixar Arles. Após sucessão de desavenças, Van Gogh, sozinho, “ouvindo vozes” e, talvez, sob o efeito do álcool, cortou parte de sua orelha esquerda, em episódio sobre o qual dizia não ter memória. Gauguin saiu de Arles na noite do mesmo dia, retornando a Paris. Nunca mais manteve contato pessoal com Van Gogh, que, após o episódio, teve agravada a sua condição mental, com crises seguidas de delírio e alucinação, o que lhe valeu internações repetidas e o apelido de “o louco ruivo”. Van Gogh deixou Arles para se internar no hospital psiquiátrico de Saint-Rémy-de-Provence em maio de 1889, não sem antes pintar magníficos autorretratos diante do espelho. Por essa razão, as telas realizadas após o incidente causam a impressão errônea de ter havido lesão de sua orelha direita.

Saint-Rémy e os novos temas: O ano de 1889 foi o último completo da vida de Van Gogh. Internado na Provence, a cerca de 30 km de Arles, o artista pintou o próprio hospital e seus arredores, locais em que encontrou oliveiras e ciprestes, temas que se tornaram recorrentes em suas obras no período. “A noite estrelada” é exemplo dessa fase na qual Van Gogh introduz imagens em redemoinhos para figurar o movimento das nuvens. Difícil definir se tais imagens eram “visões”, fruto de alucinações, ou interpretações conscientes apoiadas em objetivos estéticos, decorativos e simbólicos. Vale registrar que imagens circulares em torno de luzes artificiais e de estrelas já estavam presentes em telas pintadas em Paris e Arles. Ainda em Saint-Rémy, Van Gogh reproduziu, com interpretação pessoal, quadros de artistas que admirava, em especial mais de uma dezena de obras de Jean-François Millet, pintadas em Barbizon. Repintou, também, trabalhos de Delacroix e Rembrandt, em razão de permanecer no interior do hospital a maior parte do tempo. Nesse período, Van Gogh recuperou e repintou obras antigas suas, transformando alguns desenhos em pinturas. “Velho triste” (“No portão da eternidade”) é emblemático desse recurso.

Tal atitude tem sido interpretada como possível sintoma de abandono da própria identidade e de fuga para períodos de melhor afirmação da mesma. Chama a atenção a quantidade de trabalhos realizados com imagens detalhadamente semelhantes às de outros pintores, ainda que preservando um aspecto fundamental: o estilo ou a identidade artística da forma, ponto de afirmação identitária que jamais abandonou. Os numerosos autorretratos realizados no mesmo período, poderiam ter a mesma origem, envolvendo não apenas o estilo, mas a afirmação de sua própria identidade física. Eu existo!

Seja pela piora do quadro mental, seja por interferência nociva da medicação psiquiátrica ou por síndrome de abstinência do álcool, várias pinturas realizadas em Saint-Rémy traduzem as oscilações clínicas de Van Gogh. Surpreende, nesse conjunto de obras, a qualidade expressiva e a maturidade do artista, especialmente nos autorretratos, nos quais, utilizando uma cor primária, o vermelho, lado a lado ou em sequência com uma cor secundária, o verde, consegue produzir imagens em estilo inconfundível, escrevendo um dos mais extraordinários capítulos da arte universal.

Auvers-sur-Oise.Seus últimos dias: Entre fevereiro e abril de 1890, Van Gogh viveu período de acentuada depressão. Talvez de forma imprudente, o pintor teve alta em maio por interferência do Dr. Gachet, médico-clínico e homeopata que cuidava de Van Gogh em Saint-Rémy. O médico teria assumido a responsabilidade de tê-lo por perto em Auvers-sur-Oise, local em que residia. O Dr. Gachet era amante da arte e pintor amador, fato que deve ter sido importante na decisão de assumir tal incumbência. Em Auvers, Van Gogh frequentou a casa do médico, conviveu com seus familiares e pintou compulsivamente. Em julho, pouco antes de sua morte, fez vários quadros entre paisagens, cenas urbanas e retratos. Entre eles, o conhecido retrato do Dr. Gachet. Apesar dos esforços do médico, Van Gogh se sentiu ainda mais solitário em Auvers, escrevendo a Theo para se queixar de “tristeza e enorme solidão”. Em julho, pintou o quadro “Trigal com corvos”, expressão mais genuína de desespero e depressão. A despeito de divergências, a literatura costuma apontar esse como seu último trabalho. Em 27 de julho, Van Gogh teria disparado contra seu próprio corpo na área rural de Auvers, falecendo dois dias após. Assistido por Theo, mas, estranhamente, sem ter sido removido para assistência adequada em qualquer hospital da região. Especulações sobre disparo acidental ou assassinato por um grupo de jovens que perseguiam o artista e viam Van Gogh como o “louco ruivo” não tiveram comprovação definitiva, prevalecendo, hoje, a hipótese de suicídio.

Vida amorosa e sexualidade: Van Gogh era um romântico, expressando tal característica em sua obra, sua vida e seus amores. Dotado de grande sensibilidade, algumas paixões não correspondidas provocaram danos psicológicos que agravaram o sofrimento de uma vida de introspecção, ressentimento, solidão e frustração profissional. Sua primeira paixão não correspondida teria sido aos 20 anos por Eugenie Loyer, durante seu período em Londres, trabalhando para a Goupil. Sua prima Cornelia, sete anos mais velha e mãe de menino de 8 anos, protagonizou a segunda frustração afetiva de Van Gogh ocorrida durante visita aos tios, em Etten, quando o artista tinha 28 anos. Em Nuenen, três anos após, foi a vez de Margot Begemann. Um relacionamento tempestuoso e que resultou na tentativa de suicídio da jovem com overdose de estricnina. Entre Cornelia e Margot, o acolhimento, em sua casa, de Clarissa, conhecida como Sien, prostituta que o pintor conheceu em Haia e cuja relação com Van Gogh provocou forte reação familiar e a rejeição do seu primo Anton Mauve. Sien foi morar com Van Gogh levando a filha de 5 anos e grávida de Willem, que ela julgava ser Van Gogh o pai. O artista abandonou Sien após quase dois anos de convívio (1882-83). Sien se matou em 1904, afogada no rio Escalda. A última paixão frustrada conhecida ocorreu nos meses que antecederam a sua morte, protagonizada pela filha do Dr. Gachet. Especula-se que o fracasso desse relacionamento tenha sido o componente final de uma vida marcada por decepções e interrompida pelo suicídio.

A reação desesperada de Van Gogh ante a iminente perda do convívio com Gauguin, levantou a hipótese de que a relação com Gauguin houvesse ultrapassado os limites da amizade e da admiração. Também o retorno a Borinage e a convivência com um mineiro local alimentou a suposição de bissexualidade. Não há, porém, qualquer evidência definitiva de tal hipótese, até porque a solidão que sempre acompanhou Van Gogh e a necessidade crônica não suprida de convívio humano podem justificar os episódios.

O irmão Theo: Quatro anos mais moço, Theodorus Van Gogh, o Theo, é personagem de toda a extensa bibliografia do irmão célebre. Van Gogh era o mais velho dos irmãos vivos. Além de Van Gogh, dois irmãos homens, Theo um deles, e três mulheres: Elizabeth, Anna e Willermina, a Wil. Van Gogh, no transcorrer de sua vida, manteve contato apenas com Wil e Theo, sendo que com o irmão de forma bem mais estreita.

A participação decisiva de Theo na vida de Van Gogh ocorreu em 1880, ano em que Van Gogh resolveu iniciar carreira artística por influência e patrocínio do próprio Theo, que apresentou Vincent e seus trabalhos aos pintores que se dividiam em vários movimentos modernistas nos anos finais do século XIX, aí incluídos Pissarro, Monet, Cézanne, Gauguin, Seurat e Signac. Além disso, Theo teria tentado vender trabalhos do irmão, dando-lhe ainda ajuda psicológica e financeira. Esteve presente em suas crises mais agudas: logo após a ruptura com Gauguin e nos dias finais em Auvers, após o tiro que lhe tirou a vida. Theo e Van Gogh moraram juntos em Paris, no ano de 1886, ao final do qual se separaram, por Theo achar “insuportável” a convivência com o irmão. Tal situação durou pouco, com o retorno do relacionamento no início do ano seguinte. A morte de Theo, em janeiro de 91, poucos meses após o falecimento de Van Gogh, assim como o fato de ter sido (28 anos após a sua morte) enterrado lado a lado com Vincent no cemitério de Auvers, estimulou o imaginário coletivo em relação à imagem de Theo e à sua dedicação integral ao irmão.

É verdade que Van Gogh via e tinha em Theo seu mais importante aliado e conselheiro, fato confirmado pelas mais de 600 cartas enviadas a ele por Van Gogh, que também dependia do irmão para se manter e patrocinar a sua pintura. Não há evidências, porém, de que o sentimento de Theo pelo irmão tivesse a mesma intensidade. A solidão cotidiana companheira de Van Gogh, mesmo nos vários períodos em que viveu ao lado dos pais, não teria sido amenizada por Theo que teria considerado Vincent como um “peso”, estando presente apenas nas situações mais extremas em que o irmão esteve envolvido. Theo veio a se casar com Johanna em abril de 1889, justamente quando Van Gogh estava ainda em Arles, em período marcado por internações sucessivas e um mês antes da ida do artista para a internação em Saint-Rémy. Theo faleceu em Utrecht, supostamente por quadro terminal de paralisia geral progressiva, enfermidade de origem luética, a mesma que a partir de 1890 levou Nietzsche a 10 anos de isolamento e demência até o final de sua vida.

As cartas: No século XIX e em grande parte do século seguinte, escrever cartas era a forma habitual de comunicação à distância. Com o esplendor da literatura no século XIX, artistas, pensadores e filósofos transformavam cartas em peças literárias, mas o número de cartas escritas por Van Gogh é claramente compatível com a exacerbação emocional que pontuou a sua vida pessoal e artística.

As cartas que enviou e recebeu de Theo foram publicadas pela viúva de Theo após a morte dos irmãos. Posteriormente, de diversas origens e aportes, em 1906, 1913 e 1914, as cartas foram condensadas em livro no qual se pode perceber toda a sensibilidade, capacidade crítica, inteligência e até mesmo a cultura insuspeitada de alguém que em sua curta existência dedicou tempo para pintar e desenhar mais de dois mil trabalhos e escrever cerca de 650 cartas. Enviadas a Theo, a irmã Wil, Anthon van Rappard, Emile Bernard, Seurat, Signac e ao crítico Albert Aurier. Escritas em holandês, francês e inglês, mostram a sensibilidade e o interesse cultural do pintor. Uma mente comprometida pela enfermidade, porém brilhante e sensível, como ocorre em muitos casos de distúrbio bipolar.

O OUTRO

O transtorno mental: Fortemente cultuado em todo o mundo desde poucos anos após sua morte, é surpreendente que não haja um diagnóstico consolidado do distúrbio mental que vitimou Van Gogh. Apesar de diagnósticos bizarros como porfiria aguda intermitente e epilepsia do lobo temporal, prevalece, hoje, a hipótese de distúrbio bipolar. Nessa condição se alternam, em maior ou menor grau e variável duração e frequência, excitação psíquica e depressão. Como regra, independentemente de situações ou condições externas. Anteriormente conhecido como psicose maníaco-depressiva, o transtorno bipolar se encaixa nas crises maníacas e persecutórias e nos quadros de depressão prolongada que atormentaram a existência de Van Gogh. Visões, delírios e alucinações, que se tornaram mais frequentes nos anos finais de sua vida, levam médicos e historiadores a levantar a hipótese de esquizofrenia, mas é sabido que crises psicóticas podem ocorrer no transtorno bipolar. Nessas crises, surtos maníacos agudos podem levar a “certezas” delirantes em relação à própria identidade. Quando as variações de humor são menos graves, o paciente pode ser diagnosticado apenas como portador de ciclotimia. Esse tipo de comportamento pode ser observado nos intervalos entre os períodos mais críticos do distúrbio bipolar ou ocorrer quando a bipolaridade atenuada é sequer reconhecida. É comum que sintomas de ansiedade, hiperatividade e déficit de atenção acompanhem o curso clínico de pacientes bipolares. Diante de tais argumentos, tornou-se mais provável a possibilidade de Van Gogh ter sido paciente bipolar. Tal hipótese se fortaleceu por sua inteligência, capacidade crítica e criativa, dificuldades de relacionamento, adição a drogas (álcool) e o episódio final de sua vida, o suicídio.

A despeito de tantos argumentos, a bipolaridade pode ter sido apenas um sintoma da verdadeira enfermidade que o vitimou e impregnou sua vida e obra: o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), também conhecido como Transtorno de Personalidades Múltiplas. Nessa condição ocorreria a fragmentação do ego, originando a presença de um ou mais alter egos, ou seja, dois ou mais tipos de identidade que se alternam, convivem em harmonia ou mantêm relação conflituosa. A literatura atribui o TDI a traumas ocorridos na infância, em especial abusos sexuais, uso de violência física e/ou psíquica, negligência, perdas e mortes, gerando a necessidade de vivenciar uma personalidade mais forte, capaz de lidar de modo mais adequado com situações de violência e opressão. Na prática ocorreria o bloqueio na formação de uma identidade única, cuja estrutura global seria impedida na infância e adolescência pela separação de partes que a ela não se integram. Identidades que interagem, duelam ou que se desconhecem pela negação, gerando quadros graves de amnésia em relação ao que fez ou faz a outra identidade. Em casos extremos ocorreria a chamada possessão, na qual a outra identidade fala e age de forma diversa, como se outra pessoa ou ser assumisse a identidade do paciente vitimado por TDI. Em outros casos, ocorre a despersonalização durante a qual o paciente se percebe irreal, desconectado de sua realidade, de seus processos físicos e mentais.

Clinicamente, o portador de TDI evidencia ansiedade, impulsividade exagerada, fobias, redução da autoestima e medo constante. Ouvir vozes, alucinações visuais, disfunção sexual, uso de drogas, bipolaridade, autoagressão, automutilação e suicídio completam o quadro clínico em processos mais graves, usualmente antecedidos por busca de isolamento, ausência de empatia, medo de abandono, necessidade permanente de atenção e aprovação assim como confusão mental.

A dissociação de identidade provoca formas diferentes de agir, de opinar e de pensar, falta de identificação com o próprio corpo, sensação de que este pertence a outra pessoa, de estar dele separado e de que o mundo não é real. Sensibilidade, cognição, memória, percepção, afeto e comportamento social estão alterados, transformando o paciente em observador de si próprio, como se estivesse a observar o “outro”.

O MITO

O mito: Van Gogh, por sua obstinação criativa, estilo pessoal, amor exacerbado pela pintura e o pungente drama vivencial é, hoje, o mais reverenciado, conhecido e lendário artista moderno. Colocando em suas telas a paixão pelas cores, talvez herdada do impressionismo, os pontos e os traços luminosos oriundos do neoimpressionismo, e as fantásticas “visões” fruto da enfermidade, tornou-se um dos precursores de algo até então pouco conhecido, a expressividade. Algo “misterioso”, carismático, que emana da imagem e da interatividade com quem a observa e que pode ser traduzido simplesmente como emoção. Sua obra sintetiza valores estéticos apropriados por ele ou por ele criados, podendo ser considerada única. Romântico, luminista, colorista, expressionista, “disfarce proposital da realidade”, a obra de Van Gogh tornou-se referência se falarmos da relação íntima, profunda e profícua entre arte e emoção.

Van Gogh é um mito. Como tal, a análise de sua obra extraordinária se diferencia e transcende a avaliação dedicada aos não mitos. A condição de mito extrapola a realidade e a própria obra, atingindo o ser humano de forma diferenciada, criando nesse trajeto vários outros mitos a ele relacionados.

O pensamento mítico é comum a todas as culturas, a todos os lugares e a todos os tempos, não raro resistindo aos apelos da ciência, da tecnologia, da informação e da própria racionalidade. Necessidade aparentemente natural do homem, que busca ídolos como proteção, bússola e identificação. Claude Lévi-Strauss a chama de “pensamento selvagem”, ou seja, algo enraizado, profundo, resistente e irracional. O mito está presente ainda hoje na sociedade pós-moderna, industrial, tecnológica, urbana e informacional, identificado em artistas, atletas, líderes políticos e religiosos. Exercendo fascínio, estimulando fantasias e representando valores ou, ao contrário, desvirtudes; mas, em qualquer caso, fruto de identificação e de aspirações comumente frustradas do homem comum.

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