Vasta camuflagem

Vasta camuflagem

Ieda Magri, Escritora

 

No início era só um pontinho preto que parecia insistir no ângulo de visão do olho direito. Ela estava escrevendo e, subitamente, aparecia no batente da porta do escritório o tal pontinho preto. Ela parava de escrever e olhava para o bichinho presumido, mas só via a porta. Depois pareceu-lhe que o pontinho preto era, na verdade, uma formiga, e nem parava de escrever, só virava a cabeça e não tinha nada no batente da porta. Outro dia estava sentada no sofá lendo um livro de poesias e viu o bichinho correr pela parede da sala. Isso com a ponta do olho direito. Quando o olho esquerdo atendia o chamado do irmão se dirigindo à parede, ao ponto, ao bicho, nenhum deles estava lá. Ou ele era demasiado rápido ou havia um descompasso, uma lentidão qualquer que perdia a esperteza daquela cor preta sobre o branco da porta, sobre o gelo da parede. Não demorou muito e o pontinho preto passou a cruzar as páginas dos livros. Quando era um livro de poesias ficava bem interessante, ela achava, a ousadia daquele pontinho onde antes não havia um. O poeta não iria gostar, no livro todo antes só tinha um ponto e agora toda página ímpar tinha lá, mais pro final do que no alto da folha de papel pólen bold 90 g/m², o seu pontinho metido e escorregadio. Se ela pensava que a linha e o pensamento acabavam juntos, não demorava para perceber que o ponto já tinha descido uma linha e aí cadê fôlego pra reorganizar a leitura? O ponto mais atrapalhava que ajudava. Saltou da poesia para a prosa e a confusão foi maior, não conseguia seguir nenhum enredo, o jogo era outro: caçar o pontinho antes que ele pousasse na frase errada. E nas páginas pares o problema era novo, porque o ponto, obtuso, corria rápido pra página ímpar sem que houvesse tempo de ela ler até o fim a página par. Nisso, soube só a parte par da história com personagem ausente. O ponto, indo sempre mais à direita, acabou causando, além da confusão na linguagem, dos outros, lida em número par, um pequeno torcicolo causado pelo movimento sistemático de virar a cabeça sempre e toda hora um pouquinho mais à direita. E quanto mais o pontinho foge, mais a cabeça vira, um pouco mais e o pescoço não deixa a cabeça seguir o ponto, que, nesse quesito, tem uma vantagem: parece não ter cabeça e se sentir confortável no movimento circular de saída pela direita. Ela começava a estudar um jeito de seguir o ponto de maneira tão rápida quanto sua fuga, quando, numa forçada virada de cabeça, obrigou o ponto a acelerar seu movimento e ambos, cabeça e ponto, não conseguiram voltar à posição normal, digo, a cabeça entre os dois ombros, o ponto, nesse exercício de se esconder e tornar a aparecer sobre o ombro direito, no batente da porta, na parede gelo ou sobre a página par do livro com personagem ausente. Na nova posição em que ficaram, ela mantinha a cabeça inteiramente sobre o ombro direito e ele se escondia, ao que tudo indica, bem dentro do olho e quando dava o ar de sua graça – sim, já era muito esperado, agora que ela não lia, não escrevia, só passava seu tempo esperando a aparição dele – se mostrava bem no meio das costas, na altura, claro, dos olhos. Vendo-a nessa posição incômoda, o poeta se afligiu um pouco. Bem menos do que – era de se esperar – ao perceber um ponto preto na primeira página par de seu livro recém-lançado.

 

A articulista é doutora em literatura brasileira pela UFRJ e autora dos livros Tinha uma coisa aqui (7Letras, 2007) e Os olhos do touro, com publicação prevista para 2013.

 

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