Vinte anos depois: a batalha de Mogadíscio revisitada

Vinte anos depois: a batalha de Mogadíscio revisitada

Marta Regina Fernández, especialista em relações internacionais

 

Três de outubro de 1993: corpos de soldados norte-americanos são arrastados pelas ruas de Mogadíscio por uma multidão de civis somalis furiosos. Esse episódio fez parte da batalha urbana travada em Mogadíscio, capital da Somália, entre os dias 3 e 4 de outubro, popularmente conhecida como “Batalha de Mogadíscio”. As imagens, amplamente veiculadas pela mídia, dos corpos dos soldados norte-americanos arrastados pelas ruas de um país africano concebido como imaginariamente remoto do Ocidente deixaram a opinião pública norte-americana consternada e incrédula, servindo como o estopim para a retirada das tropas dos Estados Unidos da Somália.

As primeiras tropas norte-americanas, compostas por marines, haviam desembarcado na praia de Mogadíscio em dezembro de 1992 para integrar a Operação das Nações Unidas, liderada pelos Estados Unidos e conhecida pela alcunha “Restore Hope” (Restaurar a Esperança). O desembarque foi descrito pelo então secretário-geral das Nações Unidas, o egípcio Boutros Boutros-Ghali, como um “show de força”. O referido “show” tinha como propósito oferecer uma demonstração simbólica do poder militar dos Estados Unidos, considerado pela ONU como um ator imprescindível para dissuadir as gangues armadas somalis que, desde março de 1992, vinham obstruindo o acesso da Organização às áreas mais afetadas pela fome na Somália. A ONU parecia estar certa quanto à necessidade de envolver os Estados Unidos na operação, já que logo em março de 1993 a fome foi declarada vencida e, desde então, foi inaugurada uma nova fase da operação destinada a desarmar as facções somalis, promover a reconciliação política e reconstruir o Estado somali. Não demorou muito, contudo, para que a complexidade política dessa nova operação fosse abandonada em nome da perseguição ao líder clânico, general Mohamed Farrad Aidid, tido como o principal obstáculo à tentativa, liderada pela ONU, de estabilizar e reconstruir a Somália. Responsabilizado por uma emboscada que resultou na morte de 24 soldados paquistaneses, o general Aidid se tornou, a partir de então, o inimigo número um da operação, um “senhor da guerra” incomparável aos demais em termos da sua não confiabilidade e ambição. Os predicativos pejorativos atribuídos ao general, tais como “cruel”, “um criminoso desde sempre”, “pirata” e “líder de uma coalizão de marginais”, possibilitaram o início de uma perseguição com tons de faroeste.

Ao impor um clima de faroeste a Mogadíscio, a luta entre a ONU e o general Aidid assumiu a forma de uma luta do bem, representado pelos agentes externos, contra o mal, personificado na figura do general. Contrastando com as imagens amorfas prévias dos culpados somalis, o novo vilão, agora, tinha nome, imagem e um valor correspondente. Do lado de fora das instalações da ONU em Mogadíscio foi colado um pôster com um desenho não refinado do procurado Aidid. O Representante Especial da ONU, almirante Howe, oferecia uma recompensa de 25 mil dólares pela sua captura. No entanto, os somalis zombaram de tal caçada e Aidid respondeu a ela oferecendo igual recompensa pela cabeça do almirante. Refletindo esse espírito de faroeste, Mike Durant, o piloto do helicóptero Black Hawk sequestrado por somalis no dia 3 de outubro de 1993, falou sobre o seu trabalho em Mogadíscio da seguinte forma: “Para a maioria de nós, o trabalho parecia bastante direto e simples. Mogadíscio era Tombstone e nós eramos Wystt Earp. Nós iríamos limpar a cidade”1. Com essa frase, Durant estava se referindo ao filme de faroeste “Tombstone- A Justiça está chegando”, de 1993, que conta a história dos irmãos Earp, figuras míticas do Velho Oeste americano que lutavam para levar a lei à cidade de Tombstone contra um grupo de bandoleiros que aterrorizavam a região. Todavia, ao encenarem o Velho Oeste em Mogadíscio, a ONU e os Estados Unidos ajudaram a produzir aquilo que eles mesmos diziam buscar reverter, a saber, uma “cidade sem lei”.

A partir da orientação de perseguição ao general Aidid, os Estados Unidos disponibilizaram um contingente de Rangers e outro do Comando Delta. No dia 3 de outubro, uma invasão das tropas dos Estados Unidos ao “Hotel Olympic”, onde supostamente estaria ocorrendo uma reunião dos seguidores de Aidid, resultou na morte de 18 soldados norte-americanos e no sequestro do piloto Durant, enquanto do lado somali mais de trezentos morreram2. Em poucas horas, a mídia passou a exibir mundialmente imagens dos corpos de alguns dos soldados mortos sendo arrastados pelas ruas de Mogadíscio e, a seguir, do piloto refém com a face contundida, coberta de sangue. Tais imagens geraram uma reação internacional imediata, demandando a retirada das tropas norte-americanas da Somália.

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O papel das Imagens no Envolvimento e na Retirada

dos Estados Unidos da Somália

Imagens contundentes contribuíram não apenas para o envolvimento dos Estados Unidos na Somália, mas também possibilitaram a sua retirada. Enquanto no primeiro caso as imagens expunham, sobretudo, crianças e mulheres esquálidas e famintas, produzindo uma Somália vulnerável que urgia por proteção, no segundo caso, essas imagens mostravam os corpos dos soldados mortos sendo arrastados através das ruas de Mogadíscio. Diante dessas últimas imagens, o senador do Texas Phil Gramm comentou ironicamente que os somalis que arrastavam os corpos de soldados norte-americanos não pareciam tão famintos aos olhos dos texanos.

 

Aideia de que os somalis salvos pelos Estados Unidos durante a operação “Restaurar a Esperança” agora se voltavam contra aqueles que lhe alimentaram serviu para reforçar a imagem, presente desde os tempos coloniais, da “ingratidão» deles. O general norte-americano John Brown, por exemplo, introduz o pequeno livro de Richard Stewart, The United States in Somalia, 1992-1994, afirmando que o que, de fato, pareceu mais aterrador em relação à Batalha de Mogadíscio é que a multidão que animadamente arrastava os corpos dos soldados dos Estados Unidos era a mesma que havia sido resgatada da fome pelo país interventor. A mesma ideia está presente no best-seller escrito pelo piloto Durant, para quem os somalis estavam literalmente “cuspindo no prato que comeram”. Desse modo, Brown e Durant estabelecem uma equivalência exata entre os somalis que arrastaram os corpos dos soldados norte-americanos e aqueles que foram alimentados pela ONU. Por mais que tal equivalência seja empiricamente duvidosa, ela cumpriu uma poderosa função, qual seja: a de produzir a “ingratidão” dos somalis vis-à-vis os Estados Unidos construídos como benevolentes e bem-intencionados.

A personificação do inimigo somali na figura de Aidid, desse modo, teve vida curta, já que, após os episódios dos dias 3 e 4 de outubro, Aidid foi excluído da narrativa dominante e a culpa pela situação somali passou a ser alocada nas hordas de somalis raivosos e ingratos. O inimigo começou a ser descrito como uma “massa furiosa” ou como uma “multidão de civis enfurecidos”. Enquanto, de acordo com os primeiros discursos que informaram a entrada dos Estados Unidos na Somália, os inimigos eram identificados como bandos armados esparsos que impediam a entrega de alimentos numa Somália impotente e desprotegida, no fim de 1993 a fonte do mal passou a ser personificada na figura do líder clânico Aidid, e, logo depois dos incidentes, o inimigo, tal como descrito pelo piloto Durant, passou a ser identificado com uma multidão que parecia “engolir toda a cidade (Mogadíscio)”. Um inimigo que, conforme Durant aponta, era movido pela “raiva tribal africana” e habitava uma “terra sem qualquer futuro”. Se Aidid foi representado como um vilão “moderno” que deveria ser retirado de cena para que a lei e o progresso trazidos pelos atores internacionais pudessem prevalecer em “Tombstone”, as “massas raivosas” supracitadas foram localizadas, pelo discurso dominante, como estando num estágio de desmedido atraso em relação ao mundo moderno. Nesse sentido, com exceção do curto espaço de tempo em que Aidid foi vilanizado, os responsáveis pela violência na Somália foram, em grande medida, despersonalizados e representados na figura de gangues armadas ou de líderes clânicos envolvidos numa dinâmica de guerra vigente desde os tempos pré-coloniais. Na medida em que a violência era representada como endógena, naturalmente atrelada à cultura clânica somali, a culpa por tal violência não recaía em líderes específicos, mas em bandos armados desprovidos de nomes e identidades. O que essa plasticidade dos ditos inimigos nos revela é que longe de os Estados Unidos e a ONU se oporem a um inimigo autoevidente, as fronteiras do rival eram móveis, sendo fixadas arbitrariamente por meio da autoridade dos agentes internacionais.

 

“Alguma coisa está fora da Ordem, fora da Nova Ordem Mundial”

O envolvimento dos Estados Unidos e da ONU na Somália se deu no contexto de uma proclamada “Nova Ordem Mundial” impulsionada pela vitória da ONU/Estados Unidos na Guerra do Golfo. Por meio do slogan da “nova ordem mundial”, os Estados Unidos buscaram disciplinar as contingências do momento que se seguiu à queda do Muro de Berlim, arranjando-as numa história de progresso e coerência.

Foi George Bush quem conferiu o tom da “nova ordem mundial” no contexto da guerra contra o Iraque. Em setembro de 1990, ele argumentou que nós estaríamos vivenciando um momento extraordinário, já que a Guerra do Golfo oferecia a rara oportunidade para a emergência de um período histórico de cooperação3. O que se apresenta quase como uma prescrição em 1990, a saber: um mundo marcado pela paz, harmonia, cooperação e justiça, vai ganhando contornos mais factuais em março de 1991, logo após a vitória na Guerra do Golfo, quando a “nova ordem mundial”, segundo Bush, passa pelo seu primeiro teste4.

 

Essa “nova ordem mundial” não estava pronta, acabada, mas ainda encontrava-se no seu momento de teste, segundo a retórica do presidente Bush. Nesse sentido, essa “nova ordem” precisava ser praticada e testada a fim de ganhar robustez e durabilidade. É possível pensar que a segunda grande oportunidade de teste surge, precisamente, na Somália, a qual passa a ser concebida como um laboratório para essa “nova ordem mundial” em gestação.

Tanto para Bush como para Clinton, os Estados Unidos estariam à frente da “nova ordem mundial”, liderando-a. A liderança norte-americana do “novo mundo” teria ficado evidente não apenas no momento da Guerra do Golfo, quando uma operação da ONU comandada pelos Estados Unidos foi bem-sucedida em retirar o Iraque do Kuwait, mas, também, no momento seguinte, da Somália, quando, os Estados Unidos assumiram o comando da Operação “Restore Hope”.

A indispensabilidade dos Estados Unidos nesse “novo mundo”, contudo, tinha de ser permanentemente enfatizada, pois ela já não era tão óbvia e natural como parecia ter sido durante a Guerra Fria. Naquele momento, a União Soviética foi construída como a encarnação do mal que ameaçava, militar e ideologicamente, o “mundo livre” e que, por isso, exigia uma permanente militarização e liderança dos Estados Unidos. No novo contexto, no qual o “inimigo” do mundo livre foi dito “derrotado”, novos perigos passaram a ser retoricamente enfatizados, justificando, desse modo, a continuidade da liderança norte-americana no mundo em transformação. A questão que se coloca é: o que estava em jogo nessa insistência por parte dos Estados Unidos de fabricar não só novos perigos, mas, também, a sua indispensabilidade para neutralizá-los?

Uma resposta a essa questão nos é dada por David Campbell, para quem o fim da Guerra Fria e a consequente dissolução do inimigo que, até então, havia definido de forma clara o interesse nacional dos Estados Unidos, relançou de forma vigorosa os debates domésticos sobre o interesse nacional do país, doravante mais difícil de ser articulado em virtude da ausência de um claro inimigo externo. Campbell argumenta que, por se constituírem enquanto uma comunidade imaginária por excelência, os Estados Unidos têm de recorrer a uma série de estratégias, a exemplo da política externa, a fim de assegurarem a estabilidade da sua identidade. Desse modo, Campbell problematiza o entendimento convencional de política externa enquanto uma expressão das relações entre atores preestabelecidos dotados de identidades seguras, e passa a entendê-la como uma prática produtora de fronteiras, crucial para a produção e reprodução da identidade dos Estados. Segundo Campbell, a constituição do self é alcançada por meio da inscrição de fronteiras que servem para diferenciá-lo de um “Outro” construído como ameaçador e moralmente inferior, de tal sorte que as constantes articulações do perigo por meio da política externa não constituem uma ameaça à identidade, mas sua própria condição de possibilidade. Por conseguinte, o principal ímpeto por trás da localização da ameaça e da diferença no domínio externo reside no fato de que, assim como o domínio anárquico do qual busca distinguir-se, o próprio Estado soberano se constitui enquanto fonte de incertezas. No contexto do imediato fim da Guerra Fria, teria se tornado bem mais difícil para os Estados Unidos disciplinarem suas ambiguidades e incertezas devido à derrota do “inimigo”, o qual havia contribuído, durante mais de quarenta anos, para conferir um claro sentido à identidade norte-americana. Portanto, para Campbell, nesse momento de indefinição, revelou-se imprescindível para os Estados Unidos o reforço do compromisso moderno com um self resolvido e unificado. Para tal fim, fez-se necessário localizar novos inimigos que para serem enfrentados exigissem a liderança norte-americana5.

 

Durante a Guerra do Golfo, esse “inimigo” foi identificado na figura de Saddam Hussein, quem teria empreendido a primeira agressão ao “novo mundo” que se desenhava. Para libertar os cidadãos do Kuwait, reféns desse vilão, Bush havia proposto em setembro de 1990 que os Estados Unidos se unissem e transcendessem seus particularismos. Seguindo os passos de Campbell, contudo, podemos argumentar que esse chamado não era a uma nação norte-americana preexistente, mas era, antes, um chamado à imaginação, por meio da qual essa nação se reinventava com o auxílio de novos “inimigos”.

O segundo campo de experimentação da “nova ordem mundial” foi estabelecido na Somália. Todavia, excetuando o breve momento de perseguição ao general Aidid, as ameaças somalis não foram antropomorfizadas. A Somália foi representada como vítima dela mesma ou, mais especificamente, de um conflito que deitava suas raízes no seu passado pré-colonial. Nesse sentido, pode-se perceber que enquanto Hussein foi representado como um ditador moderno, o problema da Somália foi inserido numa outra dinâmica temporal, a qual situou os somalis num tempo muito aquém da modernidade. Ao produzir o atraso somali, os Estados Unidos, por oposição, produziram a sua identidade de vanguarda, tão importante para construí-los como o líder da “nova ordem mundial”.

É interessante notar que no seu sentido literal a palavra “vanguarda”, que vem do francês avant-garde, faz referência ao batalhão militar que precede as tropas em ataque durante uma batalha, de onde se deduz que vanguarda é aquilo que “está à frente”. Os Estados Unidos, durante a ação na Somália, não só se posicionaram à frente das tropas multinacionais enviadas, comandando-as, mas, também, ao fazê-lo, demandaram para si uma contrapartida política, qual seja: a de serem reconhecidos como os líderes da “nova ordem mundial”. Ao se projetarem como um país na vanguarda das transformações internacionais daquele momento, os Estados Unidos afastavam-se retoricamente do mundo da política de poder característico da Guerra Fria. Nesse sentido, buscava-se liderar um movimento de descontinuidade em relação ao passado que, conforme a tradição do realismo político nos conta, seria um passado marcado pelo congelamento das relações de poder evidentes desde os tempos de Tucídides. Essa “nova ordem mundial”, em oposição ao mundo inerte, no qual o futuro repetiria o passado, foi representada como dinâmica, nova, na qual o futuro ainda estaria sem fechamento e necessitando dos Estados Unidos para lhe conferir direção.

A “nova ordem” precisou ser continuamente reafirmada por meio de práticas discursivas que localizavam determinados espaços “fora da nova ordem mundial”, por ainda estarem estacionados num tempo pré-moderno, como foi o caso da Somália. A população somali foi concebida como física e temporalmente remota do Ocidente, já que é difícil conceber nos países ditos civilizados a ocorrência de uma guerra movida por ódios clânicos. A antropóloga Catherine Bestman argumenta que a representação dominante dos somalis imersos em ódios clânicos ancestrais permitiu aos norte-americanos imaginá-los como indivíduos radicalmente diferentes, chegarem a ter pena deles – quando as imagens de um povo faminto foram veiculadas pela mídia – e, ainda assim, se sentirem seguros. Por outro lado, a autora argumenta que a retórica norte-americana em relação à Somália resultou numa grosseira redução da complexidade da sociedade somali atravessada por poderosas estratificações de raça e de classe, para além das estratificações clânicas. Segundo a antropóloga, a representação da Somália como uma sociedade dividida em clãs, alguns aliados, outros em conflito perpétuo, sugeriu a ideia de uma sociedade de unidades relativamente iguais perseguindo objetivos relativamente similares e vivendo em mundos culturais similares.6 O espaço somali foi representado como um espaço monocultural, ainda que temporalmente atrasado, sugerindo, desse modo, a ideia de um sistema baseado numa única temporalidade pré-moderna. E, assim, quaisquer sinais de maior complexidade, como as estratificações de raça e classe igualmente presentes na sociedade norte-americana, tenderam a ser silenciados. Quaisquer similaridades entre as sociedades norte-americana e somali foram, portanto, ignoradas por meio de um discurso que construiu tais sociedades como radicalmente diferentes e temporalmente distantes. O processo de localizar a diferença no espaço exterior (numa sociedade clânica representada como inteiramente distinta da norte-americana), por sua vez, ajudou a preservar a identidade dos Estados Unidos num momento particularmente delicado para eles em razão de dois fatores apontados por Campbell: (i) do fim do inimigo soviético contra o qual a nação norte-americana se definia e (ii) do subsequente crescimento dos riscos de que o multiculturalismo dos Estados Unidos pudesse fragmentar a nação americana7. Desse modo, a demarcação de fronteiras rígidas entre as duas sociedades ajudou os Estados Unidos a preservarem a integridade da sua sociedade, também atravessada por complexas estratificações raciais, de classe e étnicas. Nesse sentido, no ato de “salvar” o “Outro” somali, os Estados Unidos estavam, de fato, salvando a si mesmo, isto é, tentando resguardar a sua identidade e protagonismo numa nova e fluida ordem internacional.

Segundo François Debrix, contudo, o resultado para os atores envolvidos na Somália foi que, em vez de terminarem glorificando a vitória na guerra e tendo suas identidades reafirmadas, acabaram questionando a justificativa para a guerra e imersos em dúvidas8.

 

“Black Hawk Down” no contexto das “Twin Towers Down”

11 de setembro de 2001: Na manhã de 11 de setembro de 2001, aviões sequestrados por terroristas suicidas foram lançados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center em Nova York. Os edifícios foram derrubados em poucas horas, provocando aproximadamente 3.000 mortes. Um terceiro avião atingiu o Pentágono, na Virginia, e um quarto caiu num campo da Pensilvânia depois de um enfrentamento entre alguns passageiros e os sequestradores.

 

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 forneceram novas chaves interpretativas para a apreensão das dinâmicas somalis. Em janeiro de 2002, ou seja, um pouco depois dos atentados, chegou às telas o aclamado filme “Black Hawk Down” (Falcão Negro em Perigo). O tema do filme, produzido por Ridley Scott, diz respeito a eventos ocorridos quase dez anos antes, mais especificamente no dia 3 de outubro de 1993, na Somália. Nesse contexto, a Batalha de Mogadíscio passou a ser interpretada à luz da guerra global contra o terrorismo iniciada pelo presidente George Bush no lastro dos atentados. E, assim, a queda do helicóptero “Black Hawk” na Somália adquiriu novos significados quando interpretada a partir das dinâmicas derivadas de outra queda: das duas torres gêmeas abatidas em Nova York por terroristas da rede Al-Qaeda. De fato, para Danny McKnight, comandante de um dos batalhões Rangers enviado para lutar na Somália, a Batalha de Mogadíscio pode ser vista como um “microcosmo” da luta maior travada pelos Estados Unidos contra o Jihad após os atentados de 11/99. Logo, a “guerra contra o terror” passou a ser entendida como uma continuação de uma batalha inacabada, travada oito anos antes em Mogadíscio. A expectativa era a de que a “guerra contra o terror” pudesse conferir uma finalização à Batalha de Mogadíscio, reparando as fraquezas que os Estados Unidos expuseram ao mundo naquele momento e que, segundo o comandante McKnight, teriam instigado os atentados terroristas de 2001. De fato, Osama bin Laden havia declarado em 1996 que quando um soldado norte-americano é arrastado pelas ruas de Mogadíscio, a impotência dos Estados Unidos torna-se deveras evidente10. A humilhação das tropas estadunidenses diante de uma nação africana tida pelos próprios norte-americanos como “falida” e “atrasada” abalou a imagem de vigor alcançada pelos Estados Unidos na Guerra do Golfo em 1991.

Essa imagem conturbada dos Estados Unidos, portanto, contrastava com aquela exibida ao mundo com a proclamação, pelo presidente Bush, de uma “Nova Ordem Mundial” que seria, doravante, liderada por uma superpotência supostamente invencível. Para Debrix, os eventos na Somália comprometeram seriamente a identidade dos Estados Unidos, obrigando-os a deixar o país na esteira de uma “nova desordem mundial”. As imagens grotescas dos soldados norte-americanos arrastados começaram a desvelar a incapacidade de reeditar na Somália a ideia de “nova ordem mundial” em construção desde a Guerra do Golfo. Debrix nos mostra que o enredo do conflito passou a se assemelhar muito mais ao tipo de produção de Oliver Stone, onde, como no caso de Platoon sobre a guerra do Vietnã, os bons moços se veem envolvidos no drama sem sentido e irracional da guerra terminando como vítimas, ou “bad guys”, do que com roteiro de John Ford, onde os caubóis norte-americanos estão prontos para salvar vítimas de hordas de bandidos mal-intencionados11. E, assim, os “caubóis” que tinham ido à Somália para “salvar” os somalis dos seus vilões acabam, eles mesmos, arrastados nas ruas de Mogadíscio, invertendo, desse modo, o script clássico do gênero de cinema norte-americano.

Nesse sentido, a “guerra contra o terror” passou a ser lida como uma oportunidade de vingar Mogadíscio e de ajustar as identidades que haviam sido embaralhadas pelos episódios do fim de 1993. Logo no início do filme, tais identidades são claramente demarcadas por meio de uma cena fictícia, na qual um centro de distribuição de comida é atacado pelos seguidores do líder clânico, Aidid. Se o mandato da ação internacional na Somália no segundo semestre de 1993 careceu do componente humanitário que havia orientado a intervenção dos Estados Unidos inicialmente – ao se caracterizar meramente como uma operação de perseguição ao general Aidid –, essa cena produziu o efeito de reinscrever os acontecimentos de outubro de 1993 numa dinâmica humanitária. Por meio dessa cena inaugural, portanto, as identidades do general e dos seus seguidores foram desumanizadas e colocadas no campo dos culpados, os somalis famintos foram alocados na posição de vítimas e as forças de intervenção dos Estados Unidos foram produzidas como protetoras.

 

Por outro lado, o filme cumpre a poderosa função de recontar a história da Batalha de Mogadíscio como de heroísmo e determinação por parte dos soldados norte-americanos e, desse modo, de reafirmar a liderança militar e moral dos Estados Unidos colocada em xeque no fim de 1993. Desse modo, a ânsia por vitória contra o terrorismo desencadeada a partir dos atentados de 11/9 pode ser entendida como uma oportunidade de redenção para os Estados Unidos diante da humilhação sofrida na Batalha de Mogadíscio. Os corpos feridos e arrastados exaustivamente veiculados pela mídia foram discursivamente construídos como símbolos do sacrifício nacional que seria redimido por meio da vitória na luta contra os novos vilões: os terroristas.

No contexto da guerra do Afeganistão, que teve início em 2001 como resposta aos atentados terroristas desse mesmo ano, as dinâmicas na Somália foram reinterpretadas à luz da nova e onipresente gramática da luta contra o terrorismo. E, assim, as inúmeras tentativas de negociação com Aidid e a posterior inabilidade dos Estados Unidos em capturá-lo foram compreendidas como cúmplices dos atentados de 11 de setembro e, desse modo, como erros que deveriam ser evitados a todo custo. Isso teria levado o comandante McKnight a argumentar que os Estados Unidos não deveriam se engajar em qualquer negociação ou compromisso com os “bad guys” de 2001 – Osama bin Laden e o seus seguidores – como supostamente havia ocorrido em relação aos “bad guys” de 1993 – Aidid e os seus seguidores. Nesse sentido, Osama bin Laden, líder da Al Qaeda e considerado o principal mentor dos atentados de 11 de setembro, passou a ocupar o lugar outrora ocupado por Aidid, qual seja: o de inimigo número um dos Estados Unidos. Para combatê-lo, contudo, era imprescindível persegui-lo sem trégua, sem negociações e sem hesitações.

A Somália, por sua vez, foi sendo reconstruída a partir da sua crescente identificação com o Afeganistão. Ambos os Estados passaram a ser reconhecidos, prioritariamente, a partir de uma categoria comum e simplificadora: “Estados falidos”, os quais passaram a alcançar um lugar de destaque nas preocupações de segurança dos Estados Unidos a partir de 11/9. De fato, conforme consta na Estratégia de Segurança Nacional de 2002 da Administração Bush, os Estados Unidos seriam, doravante, menos ameaçados por Estados agressivos e expansionistas e, mais, pelos Estados fracos e falidos. Esses Estados passaram a representar uma ameaça para os demais, entre outras razões, por supostamente hospedarem terroristas que, por meio das suas ações, poderiam vir a exportar instabilidade e terror para o sistema internacional.

O discurso do “Estado falido” possibilitou o estabelecimento de poderosos paralelos entre esses dois países (Somália e Afeganistão). Nessa linha, o jornalista do The New York Times Jeffrey Gettleman argumenta que assim como os Estados Unidos abandonaram o Afeganistão em 1989 após a retirada dos soviéticos, eles também teriam deixado a Somália à deriva após a humilhação de 199312. Ao serem negligenciados pelos Estados Unidos, esses Estados teriam sido entregues ao desgoverno e à desordem, tornando-se hospedeiros de atores e atos terroristas.

Nesse contexto modificado pelos acontecimentos de 11 de setembro, o discurso tão em voga em 1992 dos clãs e dos seus líderes como os principais entraves à entrega de comida à população somali e, portanto, como os principais inimigos internos foi sendo substituído por uma nova gramática que apontava para o terrorismo como o principal inimigo não apenas interno, mas, sobretudo, internacional. O problema do país, desse modo, era transferido das lutas clânicas para as milícias islâmicas que tentavam controlar o país e torná-lo seguro para terroristas. Essa passou a ser a visão dominante sobre a Somália desde os atentados terroristas de 11 de setembro: a de um país dominado por piratas e terroristas conectados à Al-Qaeda.

Essa nova imagem da Somália e dos somalis produzida a partir dos atentados de 11 de setembro demonstra, mais uma vez, a plasticidade do vilão somali aos olhos dos Estados Unidos. Se em 1992 esse vilão foi concebido como endógeno e foi naturalizado e eternizado na figura dos clãs que supostamente lutavam entre si desde tempos ancestrais, a partir do 11/9 passou a ser lido pelas lentes do terrorismo transnacional. Desse modo, os clãs cederam lugar para Al Shabab, a qual foi reinscrita na dinâmica transnacional do terrorismo. Esse movimento discursivo contribuiu, por sua vez, para despolitizar um movimento criado com um objetivo claramente político e nacionalista, a saber, o de resistir ao governo etíope que invadiu e exerceu o controle de Mogadíscio, de 2002 até 2009, contando, para isso, com a complacência dos Estados Unidos.

Ao longo de duas décadas (1992-2013), o olhar ocidental sobre a Somália foi sendo crescentemente redirecionado desde um olhar caritativo sobre um país impotente diante de um desastre humanitário para um olhar assustado voltado para um país supostamente controlado por terroristas e piratas. E a tarefa de vingar Mogadíscio por meio da afirmação da supremacia dos Estados Unidos ainda permanece inconclusa, uma vez que a Somália e tantos outros Estados ditos falidos continuam sendo representados como espaços anárquicos, incontroláveis e dominados pelo terrorismo transnacional. Nesse sentido, o futuro continua em aberto: os Estados Unidos ainda estão à espera da sua redenção, e a miragem de um mundo controlável e isento de ameaças continua animando a política externa dos Estados Unidos pelo mundo afora.

 

A autora é professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC.

martafygarcia@gmail.com

 

  1. Durant, Michael (with Steven Hartov). In the Company of Heroes, Corgi Books, 2004.
  2. Ver: Butler, John. “Somalia and the Imperial Savage: Continuities in the Rhetoric of War”, Western Journal of Communication, vol. 66, 2002 e Lang, Anthony F: “Conflicting Narratives, Conflicting Moralities: The United Nations and the Failure of Humanitarian Intervention”, In: François Debrix (ed.) Language, Agency, and Politics in a Constructed World, M.E.Sharpe, Armonk, New York, London, England, 2003.
  3. Ver: Bush, George H. W.: “Address Before a Joint Session of Congress”, September 11, 1990. Disponível on-line no Miller Center of Public Affairs, University of Virigina: http://millercenter.org/scripps/archive/speeches/detail/3425
  4. Ver: Bush, George H. W.: “Address Before a Joint Session of Congress on the End of the Gulf War”, March 6, 1991. Disponível on-line no Miller Center of Public Affairs, University of Virigina: http://millercenter.org/scripps/archive/speeches/detail/3430
  5. Campbell, David: “Violent Performances: Identity, Sovereignty, Responsibility”, The Return of Culture and Identity in IR Theory. Y. Lapid and F. Kratochwil, Boulder, Lynne Rienner Publishers, 1996.
  6. Besteman, Catherine: “Representing Violence and ‘Othering’ Somalia”, Cultural Anthropology, 11(1), 1996.
  7. David Campbell (ver nota v acima).
  8. Debrix, François. Re-Envisioning Peacekeeping. The United Nations and the Mobilization of Ideology, University of Minnesota Press, 1999.
  9. Smith, Thomas W. “‘Black Hawk Down’ Commander on Winning The War on Terror”, Interview with Danny R. McKnight, see in: http://www.humanevents.com/2010/06/08/black-hawk-down-commander-on-winning-the-war-on-terror/
  10. Ver em: http://iconicphotos.wordpress.com/tag/paul-watson/
  11. François Debrix (ver nota 8).
  12. Gettleman, Jeffrey. “In Somalia, a new Template for Fighting Terrorism”, The New York Times, October 17, 2009.

 

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